Em inglês, há uma máxima de escrita literária que diz: “Show. Don’t tell”. O equivalente em português a “Mostre. Não diga”. A premissa é de que um texto onde o narrador diz tudo, sem deixar espaço para a percepção do leitor, é um texto pobre. A narrativa deve ser recheada de imagens que ajudam a sugerir situações e emoções, mas sem dar tudo de mão beijada. Esse artigo, que surgiu a partir da dúvida de um leitor do blog, traz algumas dicas que ajudam a colocar em prática a arte de sugerir em vez de dizer.
Observe o seguinte exemplo, adaptado do site Jerz’s Literacy Weblog:
“Meu irmão é muito talentoso”.
Agora, veja o próximo:
“Meu irmão arrasa na dança de salão e nos campeonatos de xadrez, mas o que mais encanta as pessoas são as delícias que é capaz de produzir cada vez que entra na cozinha.”
Você deve estar pensando: “Nossa, seu irmão é talentoso”. Mas eu não precisei dizer-lhe isso. Apenas escolhi os detalhes certos para que você, por sua própria conta, chegasse a essa conclusão. Que tal entender um pouco mais como isso funciona?
Dicas efetivas para sugerir (e não dizer) o que você tem em mente
Por que é tão mais comum vermos textos que “dizem” tudo a partir do olhar do narrador sem deixar espaço para a percepção do leitor? Porque é muito mais fácil e rápido definir uma situação em vez de mostrá-la. Mas também é menos atraente do que apenas sugerir. Libertar-nos desse vício requer treino e dedicação, mas se seguirmos as dicas abaixo já teremos por onde começar.
[pullquote]”Não diga que a lua está brilhando, mostre-me o brilho da luz em um vidro quebrado” Anton Tcheckov[/pullquote]
1. Seja específico
Uma das maneiras mais usadas para sugerir algo em vez de dizer é escolher detalhes específicos para “mostrar” o seu ponto.
Por exemplo, em vez de dizer que “a festa estava muito chata”, mostre que “as pessoas deixavam-se ficar inertes sobre as almofadas jogadas no chão sem ânimo até mesmo para trocar a música entediante que inundava o ambiente. A bebida pouco gelada há muito deixara de despertar o interesse e os petiscos, comprados na padaria da esquina, acumulavam-se ainda nas caixas sobre a mesa. Isso tudo poderia não importar se ao menos os convidados fossem pessoas interessantes, daquelas que nos fazem virar o pescoço na rua para uma olhada mais demorada”.
2. Deixe que o leitor sinta as emoções
Não diga para o leitor as emoções que você gostaria que ele sentisse, use imagens para sugerir e proporcionar as emoções.
“No dia em que Rex morreu me senti terrivelmente miserável.” Isso só diz como você se sente, não como o leitor deveria se sentir. Tente o seguinte: “Mesmo que o dia tivesse sido estafante, chegar em casa e ser literalmente derrubado por Rex aliviava qualquer tensão. O akita da cor da neve parecia sentir que eu precisava daquele carinho. Sempre fora assim. A qualquer sinal meu de cansaço ou tristeza, lá vinha ele dedicar-me a mais generosa de suas lambidas. Aquela colocaria novamente um sorriso em meu rosto, me faria rolar no chão com ele e imediatamente esquecer o motivo que levou àquilo tudo. E agora que ele se fora, isso jamais voltaria a acontecer”.
3. Use e abuse dos diálogos
Deixar a narrativa na voz do narrador é uma grande possibilidade de que você, na maior parte do tempo, estará mais propenso a “dizer” do que a “sugerir” coisas. Para evitar isso, faça uso de diálogos. Em vez de dizer que “a mãe estava zangada com Pedro”, em um diálogo você teria: “Pedro Amaral – a mãe gritou – entre nesse carro imediatamente”.
4. Use linguagem sensorial
Sugerir significa deixar o leitor no controle da situação, torná-lo parte da ação e não um mero espectador. Então, faça-o sentir a mesma coisa que os personagens estão sentindo. E, para isso, a linguagem sensorial é muito eficiente. Lembre-se que temos cinco sentidos, embora a visão acabe atraindo maior atenção: além da visão, audição, olfato, paladar e tato. Traga experiências sensoriais para a narrativa, explore as sensações e faça o leitor sentir o que você gostaria que ele sentisse, sem dizer para ele exatamente o quê.
“A torta estava uma delícia” instiga menos do que “só de olhar Marisa já sentia-se salivar. A massa ainda fumegando, recém-retirada do forno, recebera uma cobertura de chantily gelado finalizada com calda de amoras negras. Fechou os olhos e, a despeito de a torta ainda estar inteira em cima da mesa, conseguia sentir o contraste da massa quente com o chantily gelado em sua boca. E a calda, que imaginariamente escorria de seus lábios, provocou um suspiro de satisfação”.
[pullquote]”Aos leitores mostre tudo, diga-lhes nada” Ernest Hemingway[/pullquote]
Então, que tal praticar um pouco para, da próxima vez, sugerir aos leitores aquilo que está acostumado a dizer? Esse post surgiu a partir de uma dúvida de um leitor. Se você tem alguma sugestão, deixe nos comentários abaixo.

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Gosto de deixar as minhas personagens falarem, contarem suas próprias histórias. Nesse processo suas neuroses são reveladas, ou melhor, insinuadas. Se o leitor souber interpretar as entrelinhas, o resultado pretendido será alcançado. Se não souber, ele criará a sua própria narrativa, diferente daquela que imaginei. Ou seja, a história é criada tanto pelo autor quanto pelo leitor. Deve ser maravilhoso ter talento suficiente para suscitar diferentes interpretações – todas com a mesma profundidade – para o mesmo texto. Por exemplo: Bentinho era neurótico ou não? (Eu acho que não…)
Bom post. Obrigado pela partilha.
Muito obrigado.
Sugestões maravilhosas, perfeitas! Palmas! Mas de adianta se as editoras graúdas têm os olhos voltados para os gringos? O LIXO gringo, hoje em dia, está valendo muito mais que uma obra-prima nacional, as editoras graúdas, focadas no lucro fácil, IMPÕEM o que os leitores querem ler, e o leitor médio, deixando-se influenciar pela manada, consome o que é de fora e torce o nariz para o que é produzido aqui.
Escritores nacionais abandonam seus sonhos a troco do vislumbre dos leitores daqui para o que é de fora!
Oi, Ronize,
Deliciosas e uteis essas dicas literárias que recebemos constantemente de você. Abraços – Bino
Ronize, que bom tê-la de volta, estava ansioso para poder contar com suas dicar maravilhosas. Sou um grande fã do seu blog, parabéns <3
Olá, obrigada!
É muito bom estar de volta e ser recebida assim.
Abraços,
eu gostiii do seu posttiiii
Oi, muito obrigada, estou decidida a finalmente escrever meu livro e suas dicas estão me ajudando muito nos meusproblemas em descrever emocoes
Oi, Michelle.
Que legal! Fico muito feliz de estar levando adiante o seu projeto e aproveitando as dicas do blog.
Abraços,
Ronize Aline