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Eu costumo realizar várias leituras críticas todo mês e, na maioria das vezes, os originais que precisam ser reformulados apresentam um mesmo problema: não têm história. Como assim, você deve estar pensando. Não basta colocar um fato após o outro e daí teremos uma história? Não, e é aí que reside a grande confusão. Uma história não é simplesmente uma sequência de eventos que se sucedem no tempo. Ficou confuso e agora não sabe se tem ou não uma história em mãos? Então acompanhe esse post até o final e descubra que história pode não ser o que você pensa que é.

 

Mas afinal, o que é história?

Quando nós, seres humanos, somos confrontados com circunstâncias caóticas, nosso impulso é manter-nos a salvo fazendo o que sempre fizemos. Mudar as nossas ações parece muito mais arriscado do que continuar como sempre fizemos. Mudanças causam grande ansiedade.

 

Histórias apresentam uma estrutura com a qual cada ser humano na terra consegue relacionar, já que conseguimos nos enxergar vida ali. Estamos sempre buscando nossos objetos do desejo e acreditamos que haja forças antagônicas alinhadas para nos manter longe deles. Apenas por meio de um confronto direto e da derrota dessas forças alcançaremos algo de valor.

 

Uma vez tendo alcançado ou não nosso desejo, descobrimos que não podemos voltar atrás. Ao final de uma determinada jornada, não podemos reverter o curso e voltar ao modo como vimos e sentimos antes de termos sucesso ou falharmos na nossa busca. Muitas vezes, somos convencidos a mudar a nossa forma de agir ao ouvir histórias de outras pessoas que se arriscaram e triunfaram.

 

como criar uma história

Mudança, seja grande ou pequena, requer algum tipo de perda. E a perspectiva de perda é muito mais poderosa do que o potencial ganho. É difícil imaginar o que uma mudança fará conosco. É por isso que precisamos tanto de histórias. Elas nos dão um roteiro a seguir. Temos vários exemplos de pessoas, muitas vezes crianças ainda, que ouviram histórias sobre alguém que conseguiu destaque em alguma área, e usaram essa história como exemplo e incentivo para também irem atrás do seu próprio sucesso. Precisamos de histórias para nos inspirar, dosar nossa ansiedade e nos fazer decidir pela mudança. Histórias com protagonistas pelos quais nos afeiçoamos nos dão coragem para olharmos para nossa própria vida e mudá-la.

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Como criar histórias que inspirem

Uma história precisa mudar o seu protagonista irrevogavelmente, do início ao final, senão ninguém irá se importar com ela. Pode ser uma história até divertida, mas não terá efeito duradouro sobre os leitores. Será esquecida rapidamente. Não reverberará nas pessoas. Queremos personagens que encaram as desafios de mudar a vida e decidem seguir adiante. Histórias organizam as circunstâncias confusas que encontramos pelo caminho e nos motivam a tomar as decisões necessárias. Essas circunstâncias são chamadas de CONFLITOS. O que fazemos ou não fazemos ao enfrentar um conflito é o motor da história.

 

Essa é a estrutura narrativa da humanidade. Sempre foi assim, desde que o mundo é mundo. E essa estrutura é irresistível, porque nos reconhecemos nela. Um protagonista (ou vários protagonistas) segue em uma missão no início da história e, ao final dela, depois de superar ou não as forças antagonistas, sofreu uma mudança irrevogável.

 

o que é história

 

O leitor tem que criar vínculos com a história do protagonista. E a maneira como isso acontece é por meio da busca que o personagem empreende rumo ao seu objeto de desejo externo. Afinal, nós mesmos estamos sempre empreendendo buscas rumo aos nossos objetos de desejo. Então nos enxergamos no personagem, mesmo que o desejo dele seja diferente do nosso. O que é necessário é que as dificuldades para alcançá-lo sejam tão grandes quanto as que enfrentamos na vida real e o desejo do personagem seja algo irresistível, que nos motive a acompanhar.

 

Então, não basta colocar uma série de fatos em fila e acreditar que ali existe uma história. Esses fatos precisam estar conectados e todos eles – sim, todos eles – precisam contribuir para que a trama evolua em direção ao desfecho, que pode ser o protagonista alcançando seu objetivo ou não. Fatos sem nenhuma relação com a jornada do protagonista, com a luta para superar os conflitos, atrapalham a narrativa, deixando-a lenta e estática.

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Não importa que tipo de história você esteja escrevendo, é necessário que seu protagonista tenha objetos de desejo que estejam claros para o leitor. São esses objetos de desejo (livrar-se algo, conseguir algo, superar algo…) que irá mover a trama. Ao longo da jornada, ele irá encontrar obstáculos que, encadeados, dificultam a vitória. Um conflito leva a outro, que leva a outro, que leva a outro… E, quanto mais ele sofre, mais o leitor torce por ele. Aí, sim, você tem uma história.

História não é o que você pensa que é

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

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