O menino, o bilhete e o vento
Resenhas

O menino, o bilhete e o vento

Em tempo de email e whatsapp, em que a velocidade da informação é o que conta, a singeleza de um bilhete rouba a cena em O menino, o bilhete e o vento, novo livro infantil de Ana Cristina Melo, com ilustrações de Fabio Maciel, publicado pela editora Bambolê. A história faz uma viagem no tempo e recupera de forma lúdica o já esquecido – pelo menos nos grandes centros – hábito de entregar bilhetes.

 

O que poderia ser uma tarefa fácil, na escrita  afiada de Ana Cristina transforma-se em uma linda ode a uma época em que o tempo não tinha pressa de passar. O menino, o bilhete e o vento narra a história do menino que é incumbido pela avó de levar um bilhete ao Seu Olavo, lá na cidade. Sem saber exatamente como chegar até lá, o menino inicia sua missão com ares de grande aventura, já que pela primeira vez irá fazer o trajeto a pé: “O caminho, ele conhecia. Sempre fazia, ou no lombo do cavalo, ou na caçamba da caminhonete. Mas era a primeira vez que ia a pé. E assim parecia que tudo ficava diferente.”

 

o menino, o bilhete e o vento de Ana Cristina Melo

Mas o imprevisto, esse senhor que tanto adora interferir nas histórias, aqui também não poderia faltar. E ele chega em forma de vento. Um vento daqueles de bagunçar até pensamento, um vento tão curioso quanto o próprio menino, quanto o dedo do menino, quanto a curiosidade do menino que faz a mão pegar o papel do bolso para saber o que havia escrito ali. Um vento tão forte que arrasta o bilhete para longe, muito longe.

 

E nesse bailado, do bilhete carregado pelo vento e do menino correndo atrás, Ana Cristina cria uma brincadeira de pique-pega que reproduz nas páginas de O menino, o bilhete e o vento a adorável sensação que toda criança, pelo menos uma vez na vida, já deve ter sentido. Essa brincadeira ganha movimento no texto ritmado da autora e nas ilustrações de Fabio que parecem saltar da página.

 

O menino, o bilhete e o vento

“A árvore era vizinha da casa; da casa que era dona do telhado; do telhado que deixou o bilhete descansar”, escreve a autora enquanto o menino cria vida no papel e quase nos permite vê-lo se balançar no galho da árvore, tentando alcançar o bilhete. Fabio cria ilustrações que parecem não se contentarem com as duas dimensões, ameaçando pular para fora dos limites do livro. Ele brinca com cores, texturas, colagens e permite ao leitor imaginar que está participando desse corte e colagem.

 

Uma das características mais marcantes da história, entre tantas, é o uso que Ana Cristina faz da prosopopeia. O vento não é apenas o ar em movimento, mas um personagem tão ativo quanto o menino, com vontade e curiosidade próprias e comportamento de uma criança que não quer dividir o brinquedo. Esse companheiro inesperado faz toda a diferença na sua aventura (não mais) solitária de entregar um bilhete na cidade.

 

O menino, o bilhete e o vento ilustrações de Fabio Maciel

Ao longo do texto de O menino, o bilhete e o vento, pequenas preciosidades emprestam um sabor a mais à leitura: o homem de cabelo pintado de nuvem, o papel que voava tal qual moleque fazendo pirueta e o vento que queria ler a mensagem da avó são alguns exemplos. Ao final, um gostinho de saudade (para quem já conta muitos anos) e de novidade (para quem ainda não acumulou tantos) convivem lado a lado no deslumbramento que um pequeno bilhete pode causar.

 

O menino, o bilhete e o vento
Ana Cristina Melo
Ilustrações de Fabio Maciel
Bambolê
2015

 

Quer saber um pouco mais sobre como foram feitas as ilustrações de O menino, o bilhete e o vento? Então dá uma olhada nesse vídeo onde o Fabio Maciel conta sobre o seu processo criativo.

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Livraria da Travessa

Ronize Aline

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

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