escolas de samba
Criação Literária

Escolas de Samba: 5 coisas que podemos aprender com elas e aplicar em nossas histórias

Chegou aquela época do ano que agita e divide o Brasil: o carnaval. Os apaixonados foliões rumam para os blocos, bailes e desfiles de escola de samba; os pouco afeitos à folia dirigem-se para a direção oposta – um lugar calmo, isolado, onde dificilmente chegue o som ritmado e o baticumbum das baterias. De uma forma ou de outra, ninguém passa incólume pelo carnaval. Se você é do time que dispensa a agitação foliã e pretende aproveitar esses dias para dar um gás na escrita daquele livro que está meio largado, nem por isso precisa passar tão longe do carnaval assim. Leia esse post até o fim e descubra 5 coisas que podemos aprender com os desfiles das escolas de samba que nos serão muito úteis na hora de criar nossas histórias.

 

Aprendendo com as escolas de samba

 

1. Apesar de serem vistas sob a ótica da alegria e descontração, as escolas trabalham num esquema profissional, com disciplina e hierarquia. O que vemos na avenida é resultado de um ano de trabalho duro, desde a escolha do enredo, passando pela seleção do samba-enredo, criação das alegorias, fantasias, adereços, carros alegóricos e tudo o que ajuda a contar a história do enredo visualmente.

 

Mesmo que ser escritor não seja sua profissão principal – ou nem seja uma profissão ainda – se você quer alcançar seus objetivos precisa comprometer-se e levar a sério a criação literária. Ter uma rotina, desenvolver hábitos de escrita e ser disciplinado são boas maneiras de começar a encarar a literatura de forma profissional.

 

2. Ensaios, ensaios e mais ensaios. É assim que as escolas de samba se preparam para o grande dia de desfile. Os ensaios são importantes para gerar comprometimento nos integrantes, deixá-los afinados com o enredo e o samba, desenvolver a harmonia nas alas e evitar possíveis problemas lá na frente.

LEIA  Categorias de livros infantis: saiba onde sua história se encaixa

 

Há um velho ditado que diz que a prática leva à perfeição. E isso se aplica também ao ofício de escritor, apesar de muitos ainda defenderem que ter talento para a escrita é suficiente. Quanto mais se escreve, mais afiado fica o texto. Se acompanharmos a carreira de um determinado autor é possível observarmos sua evolução. Então, escreva. Sempre. Seja o livro no qual você está trabalhando há algum tempo, uma crônica sobre algo que observou na rua ou um post para o seu blog. Tudo ajuda a lapidar o texto. E, no que diz respeito à sua história, ela também precisa e deve ser reescrita várias vezes. O primeiro esboço nunca é o que vai ser publicado. Escrever e reescrever: esse é o ofício do escritor.

 

3. No desfile das escolas de samba, a comissão de frente é o primeiro setor, o que apresenta a agremiação ao público. Cabe a ela dar o clima e o ritmo do que vem pela frente. Desde o início já temos pistas sobre o enredo e de como ele será desenvolvido.

 

Em um livro, o primeiro capítulo é a comissão de frente. É ele que dá o clima e o ritmo da história, dando ao leitor pistas do que ele pode esperar. Se o primeiro capítulo fisgá-lo, certamente irá querer continuar a leitura; do contrário, mesmo que o restante seja muito bom, corremos o risco de que abandone o livro e jamais volte a ele. Então, capriche no primeiro capítulo.

 

escolas de samba e literatura

 

4. Cada apresentação das escolas de samba tem um tempo determinado: no Rio de Janeiro, deve durar pelo menos 65 minutos e, no máximo, 82 minutos. Dentro desse tempo é preciso administrar tudo o que precisa ser mostrado. Se o desfile demorar mais do que o permitido a escola sofre penalização.

 

Uma história também tem seu tempo. É claro que não existe um tamanho único para todos os livros, como no caso das escolas de samba. Cabe ao escritor perceber o tamanho ideal da sua narrativa. Escrever menos do que a história exige significa deixar o leitor no vácuo, com vários furos na trama que não foram preenchidos. Já alongar-se demais pode tornar a leitura enfadonha e dispersar o interesse do leitor. Para ele, a trama já está encerrada, mas o livro continua esticando-a além do necessário. É preciso achar o ponto de equilíbrio.

LEIA  7 dicas para criar conflito

 

5. O desfile das escolas de samba é repleto de surpresas e novidades, muitas guardadas a sete chaves nos barracões para causarem encantamento no grande dia. Mesmo com regras a serem seguidas, há espaço para a criatividade e a ousadia.

 

Escrever é uma atividade que, como qualquer outra, tem suas técnicas. Bons livros, que nos mantêm grudados neles até o final, trazem elementos comuns entre si. No entanto, isso não significa que as histórias sejam todas iguais ou repetitivas. Sobre uma estrutura básica há muito espaço para criarmos nossas supresas e reviravoltas – tudo o que vai torná-la única e arrebatar o nosso leitor.

 

Se você é dos que não gostam de folia, veja essas outras dicas do que fazer durante o carnaval.

Você gosta de carnaval? Vai desfilar, participar de blocos ou aproveitar para acelerar a escrita daquele livro? Deixe nos comentário como vai ser o seu carnaval.

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Ronize Aline

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Leia também...

10 Comments

  1. Caramba, Ronize.
    Sempre pensei dessa forma em relação às escolas de samba. Elas tem MUITO a nos ensinar, muita dedicação e união. É um trabalho duro como o das formiguinhas. Fora que os barracões são pura alegria, pois amam o que fazem. Acho que essa é a maior das lições: amar o que fazemos! Amando, tudo sai naturalmente, basta um pouco de persistência e dedicação que o resultado será incrível. Agora que estou escrevendo como nunca pensei, vou levar essas lições comigo. Grata por sempre compartilhar sabedoria e incentivar os novos (e nem tão novos!) autores. 🙂

    Um beijo grande!
    Bia

    1. Oi, Bia.

      Que legal que você gostou das dicas. Às vezes nos esquecemos de olhar para fora do nosso campo de atuação, procurando aprender apenas com quem faz a mesma coisa que nós. No entanto, em qualquer área pode-se aprender e adaptar à nossa atividade.

      Seja sempre bem-vinda por aqui.

      Beijos,

  2. Fico muito feliz de ler um artigo relacionado ao Carnaval de alguém que enaltece o esforço das escolas de samba e não menospreza a nossa cultura.
    O Carnaval é visto com muita maldade pelos brasileiros, a famosa síndrome de vira-la. Adoro desfile, a gente ente vê de tudo em um desfile, homenagens maravilhosas e um espetáculo de história, uma vez vi na TV um carro com o tema do magico de Oz que me tocou profundamente.
    Eu ainda pretendo escrever um artigo inteiro sobre Joãozinho Trinta futuramente, é um dos carnavalescos que eu mais admiro por toda a sua importância e atitude em peitar as autoridades em nome da sua arte.

    1. Oi, Misa.

      Sim, o preconceito nos afasta de muita coisa interessante e não nos damos conta de quanto podemos aprender. Enredos de escolas de samba são uma ótima forma de observar a construção de narrativas.

      Abraços,
      Ronize Aline

  3. Que belas analogias 🙂 Nunca diria que uma escola de samba ensinaria tanto, e que se podiam transportar esses ensinamentos para a vida de escritora 🙂
    Beijinho, Ana

    1. Oi, Ana.

      Não é incrível quando descobrimos que podemos aprender com coisas que sequer imaginamos?

      Beijos,
      Ronize Aline

  4. Gosto de ver e aprender com os desfiles na avenida… e ouvir os enrredos… Carregados de histórias.

    1. Oi, Bia.

      Sim, acompanhar os enredos é uma ótima forma de observarmos a construção de narrativas.

      Abraços,
      Ronize Aline

  5. Muito legal a forma como você soube trazer o trabalho de uma escola de samba para a sua realidade. Diante disso, fica mais claro que todos nós podemos aprender com os desfiles, adaptando ensinamentos para as nossas realidades profissionais e pessoais. O que mais me agrada aqui é que o post dá a oportunidade para muita gente “destorcer o nariz” para os desfiles de Carnaval. Ninguém precisa gostar, mas sempre vale ter a mente aberta, conhecer melhor e criticar menos. Sinto que estamos precisando um pouco disso em nossa sociedade!

    1. Oi, Lari.

      É isso mesmo. É preciso deixar o preconceito de lado e perceber o quanto podemos aprender mesmo com o que é tão diferente do nosso ofício.

      Abraços,
      Ronize Aline

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *