Tempos da ditadura na casa da vovó
Resenhas

Tempos da ditadura na casa da vovó

Manifestações socioculturais pipocando aqui e acolá, feminismo, manifestações civis em favor dos negros e homossexuais, hippies, contracultura, revolução cubana e os Beatles migrando das doces melodias de seus primeiros discos para a excentricidade psicodélica que incluía orquestras, letras surreais e guitarras distorcidas. Esse é um retrato da década de 1960 no mundo. Mas e o que acontecia nessa terra brasilis? Tempos da ditadura na casa da vovó: o que vi e vivi, de Francisco Antonio Doria, direciona o olhar para o panorama político, social e cultural do  Brasil da época.

 

tempos da ditadura

 

“Vou contar tudo, aos poucos. Festas, que foram muitas, como o Baile da Baronesa, que o Jaguar organizou, ou a despedida de Marcito, em casa de Heloisa Buarque de Hollanda, ou a festa que o Smil – grande amigo, já foi embora – deu em minha homenagem em novembro, na casa dele – teve até strip tease de uma atriz muito manjada. Vou contar sobre a passeta dos 100 mil. Vou contar sobre o clima de cidade ocupada que vivemos, no Rio, em março e abril, com caminhões da PM passando a toda, sirene aberta, pelas ruas da cidade, apontando os fuzis para as pessoas na rua. Vou contar sobre aqueles com quem convivi: Paulo Francis, que me levou para o Correio da Manhã, o mais importante jornal do Rio, na época, em 1967, e me botou na equipe permanente do ‘Quarto Caderno’, o suplemento intelectual – tinha disso – mais lido do Brasil; Otto Maria Carpeaux, Antonio Houaiss, todos da redação da Grande Enciclopédia Delta-Larousse; amigos que fiz naquele tempo, como Chaim Samuel Katz e Luiz Costa Lima.”

 

É assim que Doria apresenta sua obra – e ele não está exagerando. Festas, manifestações, repressão, figuras ilustres, políticos, ícones da cena intelectual… daí já dá pra ter uma noção do que vem pela frente. Se pode parecer um pouco confuso misturar tudo isso em um único livro, Doria faz isso de forma tão bem construída que nos parece natural ler sobre passeata, festa e strip tease no mesmo parágrafo. Em Tempos da ditadura…, ele vai encaixando os temas e costurando um assunto no outro que mais parece estarmos assistindo a toda uma década passar à nossa frente.

LEIA  O que são writing prompts?

 

tempos da ditadura

 

“Nos anos 60 do século passado, era como se a gente estivesse descobrindo cores e sabores, sons e imagens novas. A roupa dos anos 50 era de uma cor só: cinza, cinza claro, cinza escuro. Uma vez, eu pequeno, me colocam uma camiseta que dizem ser escandalosa, fantasia para um baile de carnaval infantil em Petrópolis. Era uma camiseta de gola canoa, branca, listada na horizontal com fios fininhos vermelhos. De longe, nem se percebiam aqueles fios fininhos – mas só sua existência virtual, quase imperceptível, fazia ser escandalosa a camiseta.”

 

Ao mesmo tempo em que o autor traça um retrato fiel de uma década essencial para entender a história do nosso país, também vai delineando seu próprio percurso pessoal. Ora como testemunha, ora como personagem principal, Doria nos expõe de forma instigante os atos e fatos que fazem parte da nossa História (com H maiúsculo) e também aqueles que compõem as histórias que não aparecem nos livros – e, por isso mesmo, tantas vezes mais interessantes.

 

“Óbvio que é uma idealização, agora, a quarenta e muitos anos de distância, mas é como se a década de 60 do século XX tivesse sido do mesmo jeito que a Idade Média de Huizinga: muito mais colorida e rica de acontecimentos do que os tempos de hoje.”

 

tempos da ditadura

 

A narrativa de Tempos da ditadura na casa da vovó: o que vi e vivi é construída de forma a entreter, sem ser rasa; informar, sem ser didática. Um livro capaz de envolver quem já conhece (e até viveu) os momentos narrados e, também, quem apenas tomou conhecimento deles por meio dos livros didáticos. Mas, para qualquer um dos leitores, a obra vai além: além das aparências, além do conhecido, além do oficial… É como olhar pela fechadura de uma época determinante para o nosso país (e o mundo) tendo ao lado um companheiro singular: alguém que viveu e sobreviveu a todos os excessos e todas as carências que a compõem. E ter ao lado Francisco Antonio Doria para mostrar-nos para onde direcionar nosso olhar é um privilégio.

LEIA  8 lugares imaginários da literatura

 

Tempos da ditadura na casa da vovó: o que vi e vivi
Francisco Antonio Doria
1. ed.
Rio de Janeiro: Revan, 2015
160 páginas

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Ronize Aline

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Leia também...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *