de volta para o futuro
Criação Literária

O que aprendemos sobre narrativa com De volta para o futuro

No último dia 21 de outubro fãs de McFly, Doc Brown e seu De Lorean estiveram em festa. A data marcou o dia em que eles chegam no futuro e somos brindados com uma visão do que imaginavam, na época, seria a nossa realidade. De skates e carros voadores a casas totalmente inteligente, quase nada coisa realmente é como foi imaginado. Para quem ainda está meio perdido, estou falando da trilogia De volta para o futuro, que completou 30 anos comemorados no mundo inteiro.

 

Mas além de uma envolvente história de viagem no tempo, De volta para o futuro tornou-se marcante também pela primorosa construção textual que apresenta. Seu roteiro é tão bem amarrado que, a cada vez que se assiste, é possível descobrir novos tesouros criativos plantados ao longo da trama. Neste post vamos dar uma olhada com mais calma em alguns deles e ver o que o filme pode nos ensinar em termos de narrativa.

 

skate voador de De volta para o futuro
Skate voador (Foto do filme)

 

A máquina do tempo era uma geladeira

Sim, numa primeira versão de roteiro não era o De Lorean que levava McFly e Doc para outras épocas. No entanto, precisavam de uma máquina que pudesse se mover, e isso inviabilizava a geladeira. Além disso, reza a lenda que houve um certo temor de que entrar no eletrodoméstico para viajar no tempo poderia instigar crianças pequenas a fazerem o mesmo, e com isso ficarem presas lá dentro.
Lição 1: Nem sempre a primeira ideia é a melhor. Por mais que você esteja apegado a ela, tente pensar em outras opções. Será que não há desvantangens nela, será que outra escolha não trará melhores resultados?

 

A escolha da década de 1950 para a primeira viagem no tempo

A década 1950 foi quando nasceu a cultura adolescente norte-americana, com seus ícones e modismos. Esse foi o motivo que fez os roteiristas de De volta para o futuro escolherem a época para situar a primeira viagem no tempo de McFly – quando ele encontra os pais antes deles próprios se conhecerem, e acaba dando uma ajudinha nisso. E para criar essa ambientação perfeita foi essencial a presença de elementos que representavam a cultura de então: as roupas, os carros, os cartazes na rua lembrando a recessão pós-guerra, os filmes em cartaz no cinema… tudo isso ajuda o público a entrar na história.
Lição 2: Pesquise muito sobre a época em que você pretende situar a sua história. Veja se é realmente a melhor escolha para a trama e personagens e, então, conheça tudo sobre ela. Detalhes podem parecer insignificantes mas olhares mais atentos são capazes de notá-los, e isso faz toda a diferença para fortalecer a experiência do público.

 

McFly e Doc Brown são apresentados logo no início

Já na primeira cena de De volta para o futuro ficamos sabendo quem são os personagens principais de De volta para o futuro. McFly chega na casa de Doc andando de skate e, depois, saca sua guitarra e liga-a no amplificador para começar a tocar. Suas roupas – com o indefectível colete – e modos caracterizam-no como um típico jovem da década de 1980. Apesar de Doc Brown não estar ali naquele momento, a câmera faz um passeio pela casa acompanhando McFly e nos permite saber quem mora ali: alguém excêntrico que adora uma invenção e não é lá muito chegado à arrumação. Além de ter um cão como companheiro.
Lição 3: Os personagens principais devem ser apresentados ao leitor já na primeira cena. Esse será o primeiro contato com eles e, por consequência, a primeira impressão. Dependendo de como os mostramos, irão despertar empatia ou antipatia do público. Você não precisa “dizer” como eles são. Na verdade, o melhor mesmo é deixar que a cena fale por si e “conte” ao leitor sobre os personagens – como é feito de forma brilhante com Doc Brown por meio da casa.

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painel de De volta para o futuro
Painel do De Lorean (Foto do filme)

 

Em vez de Doc ir para o futuro, McFly é que vai para o passado

Inicialmente, Doc Brown conta para McFly que conseguiu construir uma máquina do tempo e irá viajar para o futuro. Um imprevisto envolvendo roubo de material radioativo – que serve como combustível para o De Lorean viajar no tempo – acaba fazendo com que McFly entre no carro e viaje para a década de 1950, já que data de destino painel está para o passado, em vez do futuro.
Lição 4: Plot twists, os famosos pontos de virada, são excelente recursos narrativos para surpreender o leitor. Comece encaminhando sua trama para uma determinada direção. Então, provoque uma reviravolta, um fato inesperado que surpreenderá os personagens e o leitor. Isso trará movimento à sua história, ao mesmo tempo em que despertará o interesse para o que poderá vir a seguir.

 

Doc conta para McFly que vai para o futuro

Logo no início do filme, McFly recebe um telefonema de Doc Brown pedindo que o encontre em um determinado lugar e leve a filmadora. Chegando lá, o garoto fica sabendo que o cientista criou uma máquina do tempo e planeja viajar para o futuro. Mas como exatamente funciona esse negócio de máquina do tempo? Nem nós nem McFly sabe. Então Doc pede que o garoto comece a filmar aquele momento histórico e, em frente à câmera, conta como chegou até ali. Ficamos sabendo dos planos de Doc ao mesmo tempo que McFly
Lição 5: Diálogos explanativos, quando não são bem construídos, costumam ser enfadonhos. Ao comprar um livro de ficção – ou assistir a um filme – o objetivo não é ficar lendo páginas e páginas de explicações teóricas sobre algum assunto. Então, como inserir informações essenciais à trama sem afastar o leitor? Existe um termo em criação literária que exemplifica bem essa estratégia: o personagem-orelha. Esse personagem desconhece algo importante sobre a trama, assim como o leitor ou espectador. Então, ao criar cenas em que o personagem toma conhecimento disso, você está ao mesmo tempo fazendo com que o seu público também conheça aquele fato da trama.

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Salvem o relógio da torre

Em De volta para o futuro, quando McFly está com a namorada na praça central ele recebe um folheto pedindo contribuição para consertarem o relógio da torre, que foi destruído há 30 anos, durante uma tempestade. Ele anota o telefone da namorada atrás do folheto e o guarda. Quando está no passado e não há combustível para voltar ao presente, ele vê o folheto e se lembra da tempestade: os raios forneceriam a energia necessária para o De Lorean fazer a sua viagem temporal.
Lição 6: Em composição narrativa existe uma técnica chamada set up/pay off, que consiste em “planta” elementos antecipadamente que serão necessárias à trama mas tarde. Insira elementos ao longo da sua história e depois surpreenda seus leitores quando eles perceberem que não estavam ali por nada, mas tinham uma função na trama. É muito mais eficiente do que surgir com uma solução inesperada, de última hora, sem que houvesse qualquer pista daquilo.
Set up/Pay off – folheto Salvem o relógio da torre, fala da tempestade há 30 anos.

 

E a editora Darkside Books lançou um livro que merece estar na estante de todo fã: De volta para o futuro – Os bastidores da trilogia, de Caseen Gaines. Com mais de quinhentas horas de entrevistas com a equipe técnica, elenco e fãs, a obra traz informações exclusivas sobre a produção dos três filmes, além de ser uma verdadeira aula de cinema.

 

 

E você é fã de De volta para o futuro? Conte-nos sobre o que você mais gosta no filme.

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Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Ronize Aline

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

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8 Comments

  1. Caraca. Que post incrível. Uma que AMO a trilogia e nasci junto com o primeiro dele!
    Dali em diante, cresci assistindo com meus irmãos e imaginando que em 2015 teria o skate voador, hahaha!
    E personagens-orelha são importantes, principalmente para mim que algumas vezes viaja em filmes muito cheio das teorias. Não sou muito de ficção científica por isso!
    “De Volta Para o Futuro” é épico, amo o enredo, os personagens, a construção da trilogia!
    Tu estava participando também do evento no Facebook do dia 21? Eu estava!
    Um beijão e um belo fim de semana!

    Bia Aguiar

    1. Oi, Bia.
      Ah! Que bom que você gostou do post. Também me diverti muito fazendo.
      Aproveitei as comemorações para apresentar o filme para o meu filhote de 7 anos. É o tipo de filme que atravessa gerações.
      Infelizmente não estava no evento, não 🙁
      Um ótimo final de semana para você também;
      Beijocas,
      Ronize Aline

  2. Muito legal o post. Obrigada pelas dicas! Acabei me lembrando da típica cena em que a cavalaria surge de repente e salva os mocinhos da fúria dos índios malvados. Esse tipo de final sempre me incomodou. E me lembrei também da Emília, do Sítio do Pica-pau Amarelo, dizendo que detestava histórias onde, por mágica, “isto vira naquilo” e resolve tudo. Plantar elementos para usar estrategicamente na solução da trama é uma dica preciosa. Adorei! 🙂

    1. Oi, Zulmira.

      Pois é, esses elementos surgidos do nada para resolver o dia não agradam a ninguém. E ainda quebram todo o trabalho feito anteriormente na narrativa.
      Beijos,
      Ronize Aline

  3. Quantas curiosidades incríveis *_*
    Eu simplesmente adorei! Eu li há um tempo atrás sobre o porque da escolha do carro rs..
    Eles fizeram parte da minha infância e ver os dois juntos depois de 30 anos foi maravilhoso =D

    1. Oi, Clay.
      Pois é, da minha infância também… E esse ano apresentei o filme para meu filhote de 7 anos. É tão legal poder passar adiante referências que ainda nos emocionam…
      Beijocas,
      Ronize Aline

  4. Seu post ficou muito sensacional, adorei! Eu não conhecia esse livro da Darkside, super vou procurar pra colocar na minha coleção <33333333333

    beijocas!

    1. Oi, Patty, que bom que gostou.
      Também fiquei doida com o livro.

      Beijocas <3 <3

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