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Somos todos colecionadores de histórias. Mesmo sem nos darmos conta, nossa existência é, na verdade, uma grande narrativa onde as histórias se encaixam, se sobrepõem ou se amontoam, nem sempre de forma ordenada. Somos as histórias que colecionamos. Mas histórias não são privilégio de seres humanos. Quem disse que objetos não constróem sua própria narrativa à medida que passam a fazer parte de nossa vida? A manta, novo livro infantil de Sonia Rosa com ilustrações de Clara Gavillan, é um belo exemplo disso.

“Nasci das mãos trêmulas de uma vovó apaixonada. Vítor já estava quase chegando da barriga de sua mamãe e eu precisava ficar pronta para recebê-lo.” Assim começa A manta, mimetizando o nascimento humano, comparando-se a esse ser que está prestes a chegar. Assim começa uma história sensível sobre como sentimentos afloram a todo hora, em qualquer lugar, trazendo um sopro de vida por onde passam.

A manta é a protagonista da história, um deleite proporcionado pela autora que nos oferece a oportunidade de vivenciarmos a narrativa sob outro ângulo, já que o narrador está em primeira pessoa – ou melhor, em primeira manta. Enquanto todos comemoram a chegada do bebê Vítor, é ela que vive as melhores experiências ao seu lado. É ela que vibra com os passeios, as festas, as fotos, os momentos compartilhados. Quem diria que deixamos histórias marcadas para sempre nos objetos que nos acompanham! E essa manta é uma danada de uma colecionadora voraz de histórias.

Mas é inevitável que histórias cheguem ao fim: “Depois, Vítor foi crescendo, crescendo e não consegui mais acompanhá-lo. Fiquei triste porque, além de perder todos os passeios, fui guardada em uma gaveta perfumada junto com outras coisas de Vítor-bebê”. Porém, chegam ao fim para que outras possam começar. E esse é o grande aprendizado da manta – e por que não de nós mesmos? É preciso fechar um ciclo para abrir outro. E assim aconteceu com ela, essa pequena personagem que ganhou ares de grande protagonista pela escrita apurada de Sonia Rosa.

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Com um texto simples e singelo, A manta conquista pela capacidade da autora de colocar-nos dentro da história. Quem nunca teve uma manta com cheirinho de aconchego de avó? Daquelas que dá vontade de ser pequeno outra vez? E esse é outro trunfo do livro: além de conquistar os pequenos leitores – que se deliciarão com o casamento perfeito entre o texto e as doces ilustrações de Clara -, ele também emociona os mais crescidos que ainda mantêm no coração como é ser aconchegado infinitamente por sentimentos que nunca morrem.

A manta
Sonia Rosa
Ilustrações de Clara Gavillan
Memória Visual
20×20 cm/20 páginas

Esse post faz parte da série Criança na Literatura, em comemoração ao mês da criança. Perdeu os dois primeiros? Siga os links:

[1] Quer escrever para criança?

[2] Categorias de livros infantis: saiba onde sua história se encaixa

A manta e as histórias que ajuda a aconchegar

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

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