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“Passa tempo, tic-tac. Tic-tac, passa hora. Chega logo, tic-tac. Tic-tac, e vai-te embora”. A poesia de Vinícius de Moraes em “O relógio” reflete bem nossa contraditória relação com o tempo. Ora queremos que passe rápido, ora queremos que se demore. A menina e os relógios, novo livro infantil de Nara Vidal, recupera com graciosidade o tema. Crianças têm seu próprio tempo, que corre em direção contrária ao dos adultos. Simples assim: o que lhes dá mais prazer é o que acaba logo, enquanto as obrigações prolongam-se infinitamente.

Não parecem estarem elas, as crianças, sempre no contratempo? Ou seríamos nós que não entendemos o tempo da infância e queremos apressá-lo para caber nas convenções diárias?

A menina da história de Nara, que já fomos todos nós um dia, vive esse vai-vem descompassado tentando acertar os ponteiros de um relógio em que não se reconhece. “Pronta para sair, a menina, tão cheia de roupas, brincava de ser um boneco de neve. A mãe, no entanto, não tinha tempo para brincadeiras. ‘Corre, corre! Menina, estamos atrasadas para a escola’.”

a menina e os relógios
Ilustração de Zeka Cintra para “A menina e os relógios”

Corre, corre! É essa a sina do nosso tempo. Vivemos a síndrome do Coelho Branco de Alice a nos lembrar que estamos sempre, inevitavelmente, atrasados. Mas para o quê, exatamente? Nara Vidal, com seu olhar aguçado para traduzir as vivências da infância que acabam refletindo em nossa vida adulta, nos mostra o quanto estamos abreviando nossas experiências para atender às demandas do tempo. E faz isso a partir da percepção da criança que, perdida em meio a tantas dicotomias, não sabe se a vida é para ser vivida calma ou apressadamente. “Pulando da cama, a menina corria. Chegava ao banheiro ofegante e, com pressa, acabava se sujando toda de pasta de dente. ‘Calma, calma! Que atrapalhada’.”

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Em A menina e os relógios, Nara brinca com as contradições que costumamos impingir a nós mesmos mas que, vivenciadas pela menina, nos mostram o quanto displicentes somos com nossas próprias vontades. E a delicadeza do traço de Zeka Cintra elabora com maestria as dúvidas e anseios da protagonista.

Para além da leitura encantadora com nossos pequenos, A menina e os relógios é para ser pensar sobre o que estamos fazendo com nosso tão escasso tempo.

A menina e os relógios: o descompasso do tempo

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

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