stella maris rezende
Entrevistas

Stella e o brilho da estrela

Stella Maris Rezende nasceu para brilhar. Saiu de Dores do Indaiá, em Minas Gerais, para ganhar outras terras com suas histórias e sua escrita que, apesar de universal, nunca perde seus mineirismos. É autora de romances, novelas, crônicas, contos e poemas – tanto para o público adulto quanto para o público infantojuvenil -, que foram vencedores de diversos prêmios como o Prêmio Nacional de Literatura João de Barro, menções honrosas da Câmara Brasileira do Livro, Prêmio Fundação Biblioteca Nacional, Barco a Vapor/Fundação SM, Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte e Prêmio Brasília de Literatura. Além disso, ganhou por quatro vezes o Prêmio Jabuti, considerado o mais importante da literatura brasileira.

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Foto: J. Egberto

Depois de quatro Jabutis e outros tantos prêmios recebidos pelas suas obras, você pode dizer que existe uma fórmula para vencer prêmios literários?

Stella Maris Rezende: De jeito nenhum! Nada garante nada no campo da arte. Escrever literatura é andar num brejo escuro cheio de mistérios. Às vezes, aparece uma claridade, um pedacinho de sol. “O que a vida quer da gente é coragem”, disse Guimarães Rosa. No entanto, pode-se dizer que uma vocação verdadeira, um projeto estético, habilidade, persistência e paciência podem oferecer várias chances de se conquistar o reconhecimento.

Existe uma certa crença de que o escritor, para fazer sucesso, deve estar nos grandes centros, como Rio e São Paulo. Você nasceu em Dores do Indaiá, em Minas Gerais, mas vive no Rio de Janeiro. Você acha que é realmente importante estar perto das editoras para que o autor seja notado e consiga se estabelecer profissionalmente?

Stella: No meu caso, já havia certo reconhecimento pelo meu trabalho quando eu ainda morava em Brasília, devido aos vários prêmios, dentre eles por 3 vezes o João-de-Barro, o Bienal Nestlé e o Altamente Recomendável da FNLIJ. Ao me mudar para o Rio, realizei um sonho antigo e isso me deixou mais feliz e mais animada. Talvez essa atmosfera de alegria e mudança tenha me dado mais jogo de cintura e mais sorte. Paralelamente a isso, devo admitir que o fato de morar nos grandes centros culturais e artísticos abre mais oportunidades de se conquistar uma visibilidade maior, fenômeno que ocorre no mundo inteiro, não só no Brasil.

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A autora no ABZ do Ziraldo

Os seus livros que receberam prêmios são os que recebem um melhor retorno também por parte dos leitores? Você acha que público e crítica costumam concordar em suas preferências?

Stella: Público e crítica raramente se afinam. Fenômenos de massa e best-sellers costumam ter a preferência do público. A crítica se interessa mais pelos livros de boa qualidade literária. Vários livros meus são comprados por programas de incentivo à leitura, como o PNBE (Programa Nacional de Biblioteca na Escola), são adotados em universidades e escolas, daí ser muito bom o retorno em relação aos premiados. Tenho leitores por todo o Brasil, até um fã-clube criado em Nova Iguaçu, Rio. Recebo cartas, e-mails e mensagens de leitores sensíveis e inteligentes que não abrem mão de livros que priorizam a linguagem, o trabalho com as palavras e as entrelinhas.

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Você tem livros para jovens e para crianças. Existe diferença nos desafios enfrentados em cada uma dessas escritas?

Stella: Quando começo um texto, não sei a que público se destina. Aos poucos é que vou descobrindo. Ao perceber que a linguagem está mais lúdica, mais sutil e mais delicada, embora os assuntos sejam complexos, imagino que se trata de um livro para crianças. Escrevo sobre qualquer assunto, sem nenhum preconceito. Todos os meus livros tratam de temas difíceis, porque a vida é difícil. Crianças e jovens podem ler sobre qualquer assunto, desde que tratado com arte. Os bons livros para crianças e jovens agradam também os adultos que gostam de sonhar, viajar e se reinventar.

Como se dá o início do processo de criação de uma nova obra? Você parte de que ponto? Faz um planejamento ou simplesmente deixa fluir?

Stella: Não costumo planejar. A história vai se construindo aos poucos. Parto de uma palavra, uma frase interessante ou uma imagem. Assim que vejo que há uma pequena estrutura, uma trama, um conflito, uma faísca de arte, começo o meu trabalho de soltar a imaginação e a memória, escrevo páginas e páginas, desembestada, livre, com angústia e alegria. Depois, vem o tempo de burilar, cortar, mexer, trocar, reinventar, costurar, tecer, transfigurar, encantar, brincar, fazer arte, dar o melhor de mim.

Você sentiu sua escrita mudar ao longo dos anos? Se sim, isso é fruto de quê?

Stella: A gente muda ao longo dos anos. A nossa escrita também muda. O que não muda é a vontade de fazer literatura, quando se tem vocação. Nasci para contar histórias e cada vez mais me convenço de que escrever é fundamental para eu me sentir viva.

Você teve dificuldade para publicar seu primeiro livro? O que você diria para quem está tentando mas até agora permanece inédito?

Stella: Publiquei meus dois primeiros livros por conta própria, o que foi muito dispendioso. A partir do terceiro, decidi que só publicaria por boas editoras que acreditassem e apostassem no meu trabalho. Quem está começando deve participar de concursos literários, para ter uma espécie de orientação sobre o caminho a ser seguido. Participar de oficinas de escrita é também muito interessante. Mas o mais importante mesmo é cada um descobrir a sua própria voz, um estilo, uma visão de mundo, um projeto estético. Isso exige muita leitura e muita observação. Mais dicas para quem está começando podem ser encontradas em meu livro editado pela Casa da Palavra: Esses livros dentro da gente – uma conversa com o jovem escritor.

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Foto: Renato Rezende

Você costuma viajar muito para todas as partes do país participando de feiras e projetos literários. Qual a importância para o autor de participar desse tipo de evento? E para quem ainda não conseguiu publicar o primeiro livro, qual o ganho em estar presente?

Stella: Os iniciantes devem participar de feiras e projetos literários para ouvir e trocar ideias, observar e se dar conta de várias coisas da carreira literária, as boas e as ruins. Ouvir depoimentos de autores com muitos anos de experiência é sempre enriquecedor. Há autores que não gostam de participar desses encontros, sentem-se tímidos e constrangidos. Eu adoro participar, porque além de poder divulgar meus livros, reencontro amigos e troco impressões sobre alegrias e dificuldades.

Por tudo o que conquistou até agora, você é uma referência para muitos autores e também para quem ainda pretende ingressar na carreira literária. Olhando para a sua trajetória, o que você diria para aqueles que pensam: “Eu nunca conseguirei chegar lá”?

Stella: Primeiro, parem de pensar assim. Ter um objetivo e lutar por ele, com entusiasmo e coragem, é fundamental. Depois, continuem a ler bastante. Só a leitura de muitos e muitos livros dá a cancha necessária para que se descubra seu próprio projeto estético. A partir daí, continuar a ler e estudar. Escrever e reescrever, incansavelmente. Nenhum livro meu fica pronto em menos de 2 anos! Trabalho arduamente. Cada um tem seu ritmo, claro. Conheço escritores que terminam um livro em poucos meses ou até em poucos dias. Comigo, o trabalho é sempre muito difícil e demorado. Acho que sou uma perfeccionista lenta e meticulosa. Mais informações sobre o meu trabalho, resenhas, entrevistas, vídeos e fotos no site:
www.stellamarisrezende.com.br

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Ronize Aline

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

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1 Comment

  1. Uma linda trajetória de vida e de profissão. Parabéns! Obrigada pela entrevista, Ronize, Obrigada, Stella, pelas maravilhosas dicas.

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