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Desde as sociedades primitivas que o homem é marcado por rituais de passagem para a vida adulta, representando não só uma transição individual como também coletiva. O momento marca a progressiva aceitação e participação do rapaz na sociedade em que está inserido – mas para isso ele tem de provar que é merecedor de tal honraria. Por isso é que esses ritos costumavam estar relacionados à caça e ao abate do primeiro animal, tendo o jovem que trazer consigo o próprio animal como troféu.

A Incrível História dos Pupus: a incansável procura, de  Rodrigo Moreira, é um romance de fantasia cujo herói está atravessando um desses ritos de passagem. A metávasi, como é chamada, é a jornada que o primogênito do rei tem de empreender ao fazer 15 anos como forma de celebrar a passagem da criança à idade adulta. O objetivo garantir que, ao voltar, o rapaz será corajoso, forte e sábio para governar. Ao longo da jornalda, é preciso vencer os obstáculos e perigos do caminho, domar a Besta que vive no pântano e voltar montado em sua pele cinza.

a incrível história dos pupus

O livro traz os elementos clássicos de uma história do gênero: reinos distantes, seres mitológicos, alianças entre governantes nas quais todos os bebês reais têm sua mão prometida pelos pais e muita aventura. O humor, apesar de não ser predominante no texto, faz-se presente em vários momentos, propiciando um agradável contraponto ao restante da narrativa.

Quem são os Pupus

Os Pupus do título são “seres com cerca de 1,30m de altura, mãozinhas pequenas, pele clara, cabelos lisos e escuros, olhos azuis como o mar e bochechas … ah,  bochechas que, só de olhar, davam uma vontade irresistível  de apertá-las, apertá-las… e apertá-las”.  A história é recheada de narrações e descrições com efeitos criativos bem mais interessantes do que os diálogos em si. O autor utiliza de forma eficiente uma conhecida regra do processo criativo: mostre, não conte. O trecho a seguir é um bom exemplo disso: “Era possível ouvir o barulho ensurdecedor dos passos produzidos pelas formigas que caminhavam numa formação impecável pelo chão, levando seus mantimentos para suprir as necessidades durante o grande inverno que se aproximava. ”
Muitos autores beberam, e ainda bebem, na fonte de Tolkien ao criarem suas obras de fantasia. É possível, em muitos deles, reconhecer algum elemento criativo do renomado autor, alguns utilizados com bons resultados, outros, nem tanto. A criação de um dialeto próprio pode ser listada como um desses elementos, e também está presente nesta obra. No entanto, o recurso, da forma como foi utilizado, acaba interrompendo a narrativa fácil e fluida – já que é preciso parar a leitura para consultar o vocabulário – sem acrescentar de fato nenhum valor relevante. Não é esse suposto dialeto, inserido em forma de palavras soltas no meio do texto, que fortalece o texto, mas os demais acertos do autor que subsistem apesar dessa tentativa frustrada.

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Entre os acertos está o de trazer o passado dos personagens em forma de flashbacks bem inseridos ao longo da narrativa. As passagens mostram-se compatíveis com a história que está contando e, dessa vez, o autor consegue agregar valor com o recurso do qual lança mão. Uma história que fala de grandes feitos, mas também da fragilidade do ser humano, já que nem mesmo um rei é capaz de mudar o destino de seu filho, ou ao menos abreviar-lhe a dor.

A Incrível História dos Pupus: a incansável procura
Rodrigo Moreira
162 páginas
Disponível na Amazon

[Resenha] A Incrível História dos Pupus

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

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