arco-íris em preto e branco
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[Resenha] Arco-íris em preto e branco: fábula do patinho feio adolescente

Gordinha, rosto cheio de espinhas, óculos e um constante mal-humor. O retrato lhe parece familiar? Você deve conhecer uma, ou mais, dessas adolescentes andando por aí em uniforme escolar e descontando suas insatisfações em um belo pedaço de doce. Assim é Isadora, a protagonista adolescente de Arco-íris em preto e branco, livro juvenil de Nara Vidal que acaba de ser lançado.

arco-íris em preto e branco

Isadora poderia ser só mais uma adolescente feiosa (segunda sua própria percepção) que, para piorar, tem uma irmã lindíssima (também segunda sua própria percepção). E, neste caso, com um agravante: são irmãs gêmeas. Ela poderia ser só mais uma não fosse por dois motivos: o olhar ácido e irônico que Isadora dedica a si mesma e o olhar carinhoso e ao mesmo tempo firme que Nara dedica à sua personagem.

O arco-íris de Isadora

A história traz como pano de fundo as agruras comuns a qualquer garota de qualquer parte do mundo – sejam elas da Inglaterra, de onde a autora nos manda essa adorável fábula do patinho feio adolescente, sejam do Brasil, onde a história aporta com gosto de bolo de chocolate compartilhado: os afazeres diários, as amizades, as inimizades, os garotos… ah, os garotos e as paixões não correspondidas. “Você já deve estar se perguntando: mas qual o problema dessa menina, por que só fala de como falam mal dela, de como sofre, pobre coitada… Deixa eu interromper o seu pensamento agora, aproveitando o gancho. Eu não tenho autopiedade. Acho isso um horror. Pena é para os fracos! Eu tenho é senso. Sou uma realista!”, diz Isadora.

A narração em primeira pessoa é um dos trunfos da narrativa, uma doce artimanha engendrada pela autora para não dar chance de não nos afeiçoarmos a Isadora desde o início. E é isso que acontece. Seu completo desprendimento em relação às pequenas futilidades que afligem as garotas da sua idade faz com que seja um personagem com quem passamos nos importar cada vez mais. Assim como a própria adolescente, Nara também não se derrama em piedade com sua criação, nem tenta protegê-la ou justificá-la. Está mais para uma mãe preocupada em criar a filha para a vida em vez de tentar-lhe compensar as fraquezas.

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“Esses meus foras nem são problema para mim mais. Eu já me acostumei, apesar de muitas vezes não querer que tivessem acontecido. Mas quem parece se incomodar mesmo são as pessoas! O bom disso é que o problema deixa de ser seu e passa a ser de quem tem problema com o seu suposto problema, se é que você me segue”. Eis a filosofia de Isadora, surpreendente para uma adolescente que descobriu à sua própria maneira como revelar seu lado cisne. Ao lado do texto fluido de Nara caminham as ilustrações encantadoras de Suppa, que brinca com as nuances da personagem, ajudando a criar a ilusão de que estamos, de fato, tendo uma conversa íntima com a garota.

De forma envolvente, Nara cria um retrato íntimo de todas as adolescentes – elas próprias sempre tão feias e desajeitadas, as outras sempre tão belas. Quem nunca se sentiu assim? Pois a autora resgata esse momento de transição mostrando que nem sempre ele precisa ser preto e branco, basta deixar de lado a autopiedade e o derrotismo e olhar a vida com menos seriedade e um pouco mais de cor.

Arco-íris em preto e branco
Nara Vidal
Ilustrações: Suppa
Editora Dimensão, 2014
88 páginas

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Ronize Aline

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

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