Blog do Conexão Autor com Ronize Aline

10

jan, 2014

6 coisas que devem constar no início do livro

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6 coisas que devem constar no início do livro.

Você teve a ideia para uma história, pensou nos personagens e em como será o final. Quando chega o momento de começar a escrever surgem as dúvidas: o que deve-se colocar logo de início? O que deixar de fora? Nem sempre é fácil saber a medida certa para não escrever de menos, que não prenda a atenção do leitor, nem escrever de mais, que acabe saturando-o com tanta informação. Para ajudá-lo a começar a escrever, este artigo traz 6 coisas que devem estar no início do livro.

O que colocar no início do livro

Algumas aberturas de livro são inesquecíveis, outras sequer são lembradas quando terminamos a leitura. Mas, em ambos os casos, se chegamos ao final é porque o início do livro cumpriu sua função: fisgar a nossa atenção. Não é necessário que seja memorável mas, sim, que seja instigante, que nos faça continuar virando a página ansiosos por descobrir o que vem pela frente. E, para garantir esse interesse, há alguns elementos que devem estar lá desde o começo, ajudando a amarrar as pontas – e a atenção do leitor. São eles:

início do livro

Foto: Tumblr

Gancho

Por que o leitor deveria continuar a ler o seu livro? Qual o interesse dele na história? Pense nisso na hora de começar a escrever. Agarre essa primeira oportunidade de fisgar-lhe a atenção com algo que o instigue: um gancho. Mas o que é um gancho? Dê-lhe algo com o que se preocupar, pelo qual se interessar. Comece com alguma situação que suscite curiosidade. O gancho vem, na maioria das vezes, em forma de uma pergunta. Mas não uma pergunta genérica, do tipo “O que vai acontecer?”, e sim uma pergunta mais específica. Imagine um leitor no início de A metamorfose, de Kafka. ao ler: “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama transformado num inseto monstruoso.” Certamente pipocariam em sua cabeça perguntas como “Em que inseto monstruoso Samsa acordou transformado?” e “O que aconteceu para que ele acordasse transformado em um inseto?”. Não há dúvidas de que já foi fisgado e continuará a ler a história até o fim.

Personagem

Histórias são sobre personagens. Até mesmo quem diz escrever histórias cujo foco principal é a narrativa não pode prescindir de personagens bem construídos que façam a narrativa caminhar. O leitor se interessa pelos personagens, pelo que têm de semelhante ou diferente dele, em como reagem às situações. Por isso, quanto antes você introduzir o personagem na sua história, mais chance terá de fisgar o interesse do leitor. Comece com seu protagonista, dessa forma estará dizendo sobre quem é a história e com quem o leitor deve se importar e acompanhar ao longo da jornada. Há quem defenda que, se possível, o protagonista deve aparecer já na primeira linha – e de preferência com seu nome. Dê uma olhada na abertura de O poderoso chefão, de Mario Puzzo: “Amerigo Bonasera, sentado na Terceira Corte Criminal de Nova York, esperava justiça; vingança contra os homens que tão cruelmente maltrataram sua filha, que procuraram desonrá-la”. De cara ficamos sabendo o nome do personagem e o que ele está fazendo, temos um motivo para querer acompanhá-lo (um gancho): “Conseguirá ele vingar os maltratos que a filha sofreu?” e “Quem foi o responsável por isso?” É importante que o protagonista seja mostrado fazendo algo que ilustre algum ponto da sua personalidade. Neste caso, pode-se dizer que Bonasera era um homem que protegia sua família e corria atrás de justiça.

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Cenário

Não deixe o leitor pensar que sua história se passa em um vácuo. Dê-lhe, desde o início do livro, conhecimento de onde está seu personagem. Qual o lugar e o tempo em que transcorre a narrativa. “No século XVIII viveu na França um homem que pertenceu à galeria das mais geniais e detestáveis figuras daquele século nada pobre em figuras geniais e detestáveis” – este é o início de O perfume, de Patrick Süskind. O tempo e o lugar são as primeiras coisas que nos são apresentadas, fornecendo informação suficiente para criarmos em nossa mente o cenário no qual acompanharemos a história desse homem genial e detestável.

Ação

Personagens estáticos não chamam a atenção. Eles precisam aparecer na história fazendo algo. A ação dá sentido de progresso à narrativa, de que a história caminha para algum lugar. Mas não é necessário começar com uma cena de ação digna dos filmes de perseguição. Às vezes ações contidas causam um grande efeito no leitor. O livro Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, começa assim: “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.” Ficamos sabendo que em algum lugar há uma ação acontecendo, já que ouviu-se tiros. Mas que tiros são esses se não são “briga de homem não”? Só lendo para saber.

Razão para se preocuparem com o personagem

O início do livro é onde você vai estabelecer a conexão com o leitor, dar uma razão para que ele se preocupe com o protagonista. Dê um bom motivo e ele se importará com seu destino, sentirá empatia por ele e irá querer acompanhar sua trajetória. Você pode fazer isso começando a história em um ponto adiante e, ao longo da narrativa, mostre como a situação chegou àquele ponto. Veja o exemplo da abertura de Cem anos de solidão, da Gabriel García Márquez: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.” Somos apresentados ao Coronel Buendía e, ao mesmo tempo, ficamos sabendo que ele se encontra diante do pelotão de fuzilamento. Mas também somos introduzidos em uma lembrança do personagem, uma tarde em que o pai levou-o para conhecer o gelo, uma experiência que deve tê-lo marcado imensamente para ser lembrada em um momento tão decisivo. Queremos saber por que ele será fuzilado, o que terá feito de tão grave, mas também por que ver o gelo o marcou tanto. Que homem é esse que comete um ato capaz de levá-lo ao fuzilamento mas é capaz de deixar-se emocionar pela visão do gelo? Pronto, já estamos nos importando com ele.

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Tom da história

Esse é o momento também de apresentar o tom da história. Que tipo de narrativa o leitor encontrará pela frente? Será uma história cômica, dramática, poética… O jeito como você escreve dá pistas do que pretende desenvolver. Então não comece fazendo gracinhas se não pretende manter o mesmo tom ao longo da narrativa. Isso só dará uma falsa impressão ao leitor, e acabará por frustrá-lo mais adiante. Quando lemos o início do livro O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger, já entramos em contato com o tom da história: “Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso.” Linguagem coloquial e um tom pouco amigável do protagonista revelam o tom que encontraremos até o final do livro.

Como você gosta de começar suas histórias? E que tipo de início mais o instiga quando lê um livro?

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Comments

8 thoughts on “6 coisas que devem constar no início do livro

  1. Luiz Valério

    Por muito tempo tive (e ainda tenho) dúvidas sobre como começar e dar seguimentos às minhas histórias.
    Dicas como as colocadas acima elucidam muito do que estava nebuloso em minha cabeça para o ato da escrita literária.
    Aos pouco vou encontrando o caminho das pedras e colocando uma palavra após outra até preencher a página que até então estava em brando.
    Obrigado por nos ajudar a encontrarmos a melhor maneira de escrevermos nossas histórias.

    Responder

  2. José Igor

    Venho estudando bastante sobre inícios de livros e realmente dá um trabalhão impactar e/ou prender o leitor já nos primeiros parágrafos.
    Parabéns pela escolha dos exemplos, muito bons!

    Demorei dias pensando e cheguei neste início de história:

    “Se nós, seres humanos, possuíssemos um dispositivo com a finalidade de soar um alarme quando um assassino estivesse por perto, a fim de ceifar nossas vidas, seria perturbador, mas perfeito. E neste caso, o de Juliet Gentil estaria soando há muito tempo. Entretanto, mesmo assim, com alarmes hipotéticos ou não, ela não foi capaz de perceber o perigo que se aproximava de maneira sorrateira. Juliet decidiu jogar, e foi eliminada para sempre, não apenas do jogo, mas da vida também.”

    Foi o melhor que consegui para o primeiro parágrafo de “O Cúmplice e o Assassino”, rsrsrs, o que acha Ronize?

    Parabéns pelo site! Beijos!

    Responder

    • Ronize Aline

      Oi, José.
      Obrigada pela visita.
      Sim, inícios são difíceis, mas acho que voc? conseguiu se sair bem. O seu início tem gancho, desperta interesse pelo que virá depois. Quem será essa pessoa próxima que é uma ameaça para Juliet? Ficou bem legal.
      Abraços,
      Ronize Aline

      Responder

  3. Gustavo

    olá Ronize, eu e meus amigos estamos criando uma História baseada em RPG e nós gostaria de saber se o início da nossa história ficou correto.

    ” Após anos de uma batalha dolorosa e interminável, Inguz decide usar sua magia mais poderosa contra o mago perverso ao ponto de aniquilar os poderes dele deixando vulnerável para seu irmão poder mata-lo.
    Então ele invoca seus Espíritos Tristes para possuir o corpo do mago perverso e se alimentar da sua magia, mas em troca Inguz teria que dar alguma coisa em troca para que essa magia fosse concluída, então ele ofereceu seu Bem mais precioso “o Colar de Sangue” onde estava concentrada toda sua magia.”

    Responder

    • Ronize Aline

      Olá, Gustavo.
      Está interessante, mas não dá para dizer se ficou “correto” sem ler o livro inteiro, afinal o que aparece ali deve estar conectado com o restante.
      Abraços,
      Ronize Aline

      Responder

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