fios de prata
Resenhas

[Resenha] Tecendo os Fios de Prata

Tecendo os Fios de Prata.

A criação artística sempre manteve estreita ligação com o cenário dos sonhos, onde os rígidos limites racionais são rompidos e as possibilidades mais delirantes ganham forma. Criar é ousar, romper barreiras, arriscar, pensar fora da caixa, como diriam os americanos (think outside the box, no original). Criar é sonhar acordado. Ou sonhar desperto, como diria Raphael Draccon em seu Fios de Prata: reconstruindo Sandman, cuja resenha apresento abaixo.

Fios de Prata, o livro

“Nós somos do tecido de que são feitos os sonhos”, escreveu Shakespeare certa vez, quem sabe ele próprio acostumado a moldar a matéria de que são feitos os sonhos para criar suas obras. Sonhar é ousar para além dos limites de quando estamos acordados. Mas e quem ousa sonhar acordado? São sonhadores que se transformam em escritores, músicos, pintores, escultores, toda sorte de artistas. Raphael Draccon, autor da obra de fantasia Fios de Prata: reconstruindo Sandman, é um sonhador que ousa sonhar acordado – ou desperto. Afinal, o que dizer de um escritor que se propõe a reconstruir um mito enraizado no imaginário coletivo e eternizado na obra de ninguém menos do que Neil Gaiman? No mínimo, que tal incursão literária é uma ousadia. Aliás, ousadia é uma ideia que permeia todo o livro e a matéria da qual é moldado o personagem principal, Allejo.

Ao contrário do que se possa imaginar, Allejo não é o nome de nenhum deus fantástico, mas o apelido pelo qual é conhecido Mikael Santiago, famoso jogador de futebol brasileiro em ascensão internacionalmente. E aí reside um dos muitos méritos de Draccon. Ao tecer seu romance, o autor coloca sob a mesma narrativa habitantes do reino da fantasia e simples mortais. E faz isso seguindo, com uma escrita precisa e dinâmica, os fios de prata que ligam os sonhadores a suas formas de sono, tal qual um Teseu que se guia pelos fios de linha deixados no labirinto por Ariadne. São os fios de prata que ligam os dois mundos, antes unidos apenas durante o sonhar, mas que agora irão entrelaçar-se de maneira indefectível. “Eu sonho como se estivesse acordado”, diz Allejo em determinado momento.

fios de prata

Tudo começa quando um irmão ciumento do sucesso de outro resolve vingar-se por conta de uma trapaça realizada no passado, dando origem a uma guerra entre semideuses. O deus Hypnos delegou o Reino do Sonhar a seus três filhos, deuses menores: Phantasos, o Lorde das Fadas; Phobetor, o Senhor do Escuro, e Morpheus, o Senhor do Sono. Morpheus, o caçula, conseguiu enganar seus irmãos e ficou conhecido entre os humanos como o único deus dos sonhos. Phobetor, em cujos territórios têm lugar os sonhos mais sombrios, pretendendo se vingar dessa trapaça, quer para si tudo o que o irmão conquistou. E Phantasos, em cujos territórios reina a fantasia, não deixará que os irmãos levem a melhor. É no território de Phantasos que vive Madelein, o Anjo dos Sonhos, que recebe em seus domínios os sonhadores despertos. “Foi a mim […] que o dramaturgo veio pedir a bênção antes de retornar, que o surdo tirou força para enfrentar o infortúnio que escolhera e montar a sinfonia, que o Divino pediu ajuda para pintar a Capela. Alguns deles vêm até mim à noite para sonhar dentro de seus próprios sonhos. Mas antes disso eles vêm a mim acordados buscar inspiração”, lembra Madelein. Quem ganhasse a guerra ficaria com os fios de prata de sete bilhões de sonhares terrestres.

Mas o mundo, cada vez mais escuro na orbe terrestre, também no Sonhar tem buscado as sombras. Phobetor lembra a Madelein que os sonhadores por vezes acabam refugiando-se em seu reino para de lá completarem suas realizações. “Tu inspiraste Rowling, e foi nas terras de Morpheus que se moldou Hogwarts. Tu inspiraste Tolkien, e foi nas terras de Phantasos que se anexaram as extensões da Terra Média. Tu inspiraste Lovecraft, e em minhas terras se fixou Miskatonic. Então eu te pergunto com sinceridade, Anjo: até onde vai tua vontade de ser coadjuvante em um mundo de formas e pensamentos?”, pergunta ele. Nesse trecho podemos perceber um recurso com o qual Draccon nos surpreende ao longo do texto, e que contribui para ressaltar a costura que tão bem ele faz entre duas narrativas, que poderiam correr em paralelo, mas estão intimamente ligadas com fios de prata: a citação de artistas reais cujas obras teriam sido desenhadas e elaboradas nos territórios dos sonhos. Essa costura firme é realçada em outros momentos, como quando relaciona eventos passados aqui embaixo a alterações – positivas ou negativas – no Reino do Sonhar. Um exemplo é que, ao mesmo tempo em que Phobetor, o Senhor do Escuro, leva vantagem em sua luta contra Morpheus, em São Paulo  uma menina de classe alta  planeja o assassinato dos próprios pais, rouba dinheiro do quarto deles e vai a um motel fazer sexo com o namorado, um dos assassinos.

A escrita de Draccon é essencialmente visual. A riqueza de detalhes, a elegância do texto meticulosamente construído e a tessitura perfeita que faz entre o mundo real e o mundo dos sonhos criam imagens difíceis de cair no esquecimento. “Acharás [interessante] mais ainda no dia em que vires sonhadores famosos se deitarem sobre estes álamos e escutarem o sussurro das palavras. A maioria acorda no momento seguinte, correndo a folhas ou a telas em branco. Outros esquecem rápido e demoram a concretizar suas obras. Mas a Arte já está pronta. Basta ter a capacidade de sentar-se em silêncio, escutá-la, e…”, Madelein explica a Allejo como os artistas buscam inspiração em seus domínios para as peças que criarão posteriormente. Se é verdade que o Anjo do Sonho inspirou Shakespeare a escrever Sonhos de uma noite de  verão na Primeira Estrada de suas terras e que Morpheus inspirou Gaiman na Nona Estrada, como afirma o livro, isso nos leva a pensar em que estrada daquele reino Phantasos teria inspirado o próprio Draccon a tecer os fios de prata que formaram essa obra.

Para mais informações sobre a obra de Raphael Draccon, visite o site do autor.

Fios de Prata: reconstruindo Sandman
Raphael Draccon
Editora Leya, 2012
352 páginas

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Ronize Aline

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Leia também...

3 Comments

  1. Francesca Abreu says:

    Livro que estou lendo atualmente.
    É incrível como é fácil a leitura.
    Estou encantada com o decorrer dos fatos e a construção dos personagens.

  2. O Raphael merece mais destaque nas mídias grandes. Ele faz parte da atual vanguarda da literatura fantástica no Brasil e, em minha opinião, é o principal (por questão de ser o “highlight” da vanguarda). Compreendo que é uma coisa complicada dar destaque a algo tão não-tradicional como uma literatura fantástica, mas é algo que vem atiçando curiosidade aos leitores e considero esse ponto como o crucial. É um tipo de leitura que está atraindo leitores. Não é algo de nicho, que só os estudiosos e interessados vão buscar. Não é algo elitista do qual poucos vão gostar. Acho que está na hora de mudar o ponto de referência para algumas coisas. Gosto muito do Raphael e é isso aí.

  3. Tlsouza says:

    Gosto do Draccon desde que li sua trilogia, Dragões de Éter, e simplesmente me encantei com o jeito que ele escreve… esse encanto se transformou em adoração quando tive a oportunidade de ler Fios de Prata. Um dos meus livros prediletos… me apresentou também meu personagem favorito, Phantasos. me alegra poder dizer que Draccon é Brasileiro… um escritor com o qual me identifico e me espelho. 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *