João Vereza
Entrevistas

Prêmio SESC 2013: entrevista com João Vereza, vencedor na categoria contos

Prêmio SESC 2013: entrevista com João Vereza, vencedor na categoria contos.

Como não sabia em que formato classificar seus textos, João Vereza resolveu criar seu próprio gênero: noveleletas. E foi assim que ele batizou o livro com cinco histórias que acabou vencendo o Prêmio SESC de Literatura 2012/2013 na categoria Contos. “Não acredito em gêneros ou em formatos. Acredito numa boa história com uma linguagem marcante e de impacto e, acima de tudo, em bons personagens”, declara o jovem publicitário, para quem escrever sempre foi mais uma questão de habilidade do que de interesse. Para os que também querem se sair bem em concursos literários, João tem duas dicas preciosas: a primeira é “encontre a sua voz. Todo mundo tem a sua.” A segunda? Leia a entrevista a seguir, onde o autor fala sobre suas referências, sua escrita e algumas outras coisas que todo escritor precisa ter em mente.

Com vocês, João Vereza

 

  • Você já declarou que, no seu caso, escrever é mais uma questão de habilidade do que de interesse. Quando foi que percebeu que tinha essa habilidade? E, quando começou, escrevia o quê?

    Na escola. Lembro bem de um exercício, ainda na alfabetização. A professora nos deu uma tirinha de quadrinhos, sem palavras, e pediu que descrevêssemos a história. O desenho mostrava um hipopótamo de circo tentando andar por uma corda bamba, a corda arrebentava e o bicho caía. Não lembro o que escrevi da história, mas sim que escrevi a palavra “cataploft” – ou alguma outra onomatopeia para descrever a queda. Depois fui chamado à sala da diretora. Lá estavam a professora, a diretora e outra orientadora. Pensei que tinha feito alguma besteira, mas elas só queriam saber de onde eu tinha tirado aquela palavra tão diferente. E não soube responder. Assim como não sei responder até hoje de onde surgem as palavras, os nomes, os personagens, as ideias. Essa é uma das primeiras lembranças que tenho de escrita.

    O ambiente em casa sempre foi muito fértil aos dois lados da literatura. Minha mãe, hoje professora universitária com doutorado em literatura, sempre foi uma leitora profissional e meu pai, redator publicitário, diretor de criação e também escritor, era, e é, o produtor de texto. Cresci assim. O mundo da literatura sempre foi muito natural, cotidiano e fascinante. Lembro também que minha avó tinha uma máquina de escrever e eu adorava brincar com ela, escrevendo pequenas historinhas só para curtir as teclas, o ato físico de escrever. Até hoje, atrás de uma máquina de escrever (hoje o teclado) é onde me sinto mais em casa.

    E a questão da percepção da habilidade veio em contraste com as outras coisas: sempre fui péssimo jogando bola, desenhando, fazendo conta, soltando pipa ou subindo em árvore. E escrevendo sempre me dava bem sem fazer esforço. Como é sempre mais fácil seguir por onde tem menos atrito, foi por aí que eu fui. A primeira vez que tentei escrever algo fora das aulas e dos temas de redação foram histórias de horror, que nunca foram terminadas e, graças a deus, acabaram perdidas por aí.

  • Em vez de ler Monteiro Lobato, como queria sua mãe, você lia Julio Verne. O que o autor tem a oferecer para quem gosta de escrever? Há algum resquício de Verne em sua escrita?

    Quando falei de Julio Verne, merecem aí serem incluídas todas as obras clássicas de aventura: Tarzan, Robinson Crusoé, Moby Dick, As Minas do Rei Salomão, A Ilha do Dr Moreau, Sherlock Holmes. Eu colecionava fascículos dessas aventuras que saíam nas bancas e lia todos. Isso e os livros do João Carlos Marinho foram como fui descobrindo meu paladar literário. E paladar é realmente a melhor palavra. Ler, ouvir música, ver filmes e qualquer outra forma de apreciar arte é como comer. Ou você gosta ou não gosta. E você não tem que ler isso ou aquilo só porque dizem que é bom. Se você não gosta, não leia. Pode cuspir fora e procurar algo que goste.

    Tudo é referência, tudo é algo que você, como escritor, pode trazer para sua obra. Hoje, mais de 20 anos depois, tentando analisar o que escrevo com tudo o que li, digo que, de estilo, tenho muito mais influência do João Carlos Marinho, um texto mais leve e divertido. Estes autores clássicos me serviram como estímulo à imaginação e à uma ficção mais agressiva no sentido da fantasia e de criar seu próprio universo.

João Vereza
João Vereza/Foto: Renata Coelho

 

  • Suas referências para a escrita vêm prioritariamente de leituras ou de outros estímulos? Que artistas influenciam seu modo de criação artística, escritores ou não?

    Eu me considero um péssimo leitor. O escritor que mais li é Stephen King. Dele eu gosto muito da caracterização profunda dos tipos e da geografia do Maine, e principalmente em como ele constrói a narrativa deixando o leitor sempre em um estado de suspense. Não o suspense no sentido do horror, mas sim o suspense de simplesmente não saber o que vai acontecer. Essa é uma grande técnica de prender o leitor. Você, o escritor, sabe de tudo. E sabendo de tudo tem o poder de ir revelando aos poucos, brincando com o leitor e desenhando sua história no ritmo que quer.

    Tolkien me fascina muito pela grandiosidade do seu projeto. Ele se propôs a criar um novo universo e, com muito foco e perseverança, criou. Também gosto muito de autores que trabalham com o som, como Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Marcelino Freire, Ariano Suassuna, Mia Couto. Nos últimos meses, dois autores têm prendido muito minha atenção e aberto muitos caminhos. Lourenço Mutarelli, com sua forma incomum e surpreendente e seus personagens altamente doidos e viscerais. E o Daniel Galera, que tem uma paciência, uma estética e um conhecimento de estrutura que também me deixou muito impressionado.

    Mas, acima de tudo, minhas referencias são pop. E tudo, absolutamente tudo, que vejo respinga no que escrevo. Quadrinhos, com destaque para Stan Lee, Frank Miller, Alan Moore, Neil Gaiman e toda a turma da Marvel. Cinema, sem dúvida nenhuma: Spielberg, George Lucas, Coppola, os irmãos Coen, Tarantino, David Fincher, Tim Burton, Pixar, Disney. Séries de TV, como Mad Men, Roma, House, Seinfeld, House of Cards, que tem um texto e diálogos afiadíssimos. Artes plásticas, de Michelangelo à Van Gogh com muito dos contemporâneos e dos modernistas, como Warhol e Roy Linchestein.

    Enfim, tudo é insumo, tudo é adubo. Um artista de verdade não vê o mundo com olhos do que é bom ou ruim, do que precisa ser visto e o que é dispensável. O verdadeiro artista vê tudo como fonte. O que ele pode aproveitar e o que não. É algo de feeling, de alma. É como ouvir um novo artista e sentir “é isso. Isso me toca, isso combina comigo, isso conversa com o que eu tenho a dizer. Por isso, isso eu vou guardar e vou usar.”

  • Dos cinco aos dezoito anos você estudou música, mais profundamente bateria. De que forma a música aparece na sua escrita? Tocar um instrumento de percussão ajuda a dar ritmo ao texto?

    Tocar um instrumento é algo muito doido, porque você usa uma outra parte do cérebro. Tem as técnicas, os aprendizados e os exercícios. Mas quando você senta para trocar, é como se fosse tomado por uma entidade. É algo muito de alma mesmo. Para mim, música é algo fundamental na escrita. Não consigo escrever sem ouvir música. E é o mesmo feeling de quando toco bateria. Sei algumas diretrizes e alguns marcos que preciso seguir. O que vai acontecer ou o que o personagem precisa dizer e, principalmente, o efeito que quero causar com aquela passagem. Agora, isso tudo é só ensaio. Porque quando sento pra escrever e coloco meu fone no talo, vou escrevendo com o feeling da música. E música é colaboração. É você estar sempre ouvindo o outro e respondendo, e acompanhando, e acrescentando seu toque para uma obra que, sem a mínima sombra de dúvida, é algo maior que você. Por isso, como escritor, estou sempre mais respondendo do que guiando.

    Tocar ou não um instrumento não sei se ajuda a produzir textos. Mas com certeza o ouvido sim. Antônio Carlos Vianna diz que temos que pegar o leitor pelo ouvido. E literatura, narrativa, é música, é combinação de sons. Texto é um entrelaçamento de ideias, uma sequência. Nisso, o escritor funciona como um maestro. Você não precisa ser músico ou estudar ou entender de música para escrever. Mas ter um bom ouvido é imprescindível.

  • Você disse que a única coisa que as cinco histórias do livro têm em comum é a linguagem. Que linguagem é essa? Você, como autor dos textos, consegue definir um estilo seu?

    A primeira vez que vi “Auto da Compadecida”, pensei “é isso”. A primeira vez que li Guimarães Rosa, pensei “é isso”. Também aprendi que escritor trabalha com palavra. Cada palavra tem uma importância atroz e não deve nunca ser utilizada com displicência. Você não pode nunca deixar o sistema falar por você. Não lembro se foi João Cabral ou Manuel Bandeira que dizia que preferia mil vezes a palavra manga à palavra alegria. Ou seja: utilizar a linguagem de uma forma diferente e livre é algo maravilhoso. Literatura é liberdade, como um desenho animado, onde você não tem compromisso nenhum com a realidade. É palavra que puxa palavra, é ideia que puxa ideia. Conforme fui desenvolvendo meu texto, fui vendo que onde me dava melhor era com esses cenários e personagens com uma fala mais autêntica, mais única, mais poética. Ao mesmo tempo, em Noveleletas a linguagem sempre aparece como base para a história. Não sei dizer o que veio primeiro. Se a linguagem ou a história, ou o personagem. Só sei que os dois se encontram e conversam para alcançar algo maior, que é o efeito.

    O Trem Nascente tem sons de trem para enriquecer a passagem do trem. O Mistério de Barra Pequena tem uma linguagem mais naïf porque o narrador ainda está formando e descobrindo sua identidade. A Maçã do Chorume tem os excessos e os trejeitos de uma cidade do interior porque quis que o leitor entrasse de cabeça na cidade, como eu entrei ao escrevê-la. Canção de Mané Cotó foi inspirado nas canções medievais, até mesmo no seu formato, para tentar contextualizar uma história que se passa no século XVIII. A Perna do Rei tem uma linguagem mais seca e descritiva numa tentativa de deixar o embarque no navio onde a história se passa o mais intenso possível. Definitivamente, não sei definir o meu estilo. Mas sei que tenho muitas inquietações em fazer algo previsível. Rotina pra mim não serve. Eu nunca escreveria que o vovô viu a uva. Agora, se quem viu o vovô foi a uva, já podemos começar a conversar.

Noveleletas - livro de João Vereza
Capa de Noveleletas/Arte: Renata Coelho

 

  • Como não conseguia definir um gênero para os textos do livro, você criou seu próprio gênero: noveleletas. Na sua opinião, criar a partir de gêneros literários pode ser um limitador para quem ainda está no início da carreira?

O único limitador para quem esta em início de carreira é o medo. Medo de errar, medo de não agradar, medo de não conseguir terminar,    medo de não ser lido ou não ser best seller, medo de não atingir suas próprias expectativas. Claro que o medo existe e é bom que ele exista. É o medo que deixa a gente alerta e nos mantém prumo. Mas ele precisa ser domado. Com medo, você nem sai da cama, porque tem medo que acender a luz possa te dar um choque. Por isso, o foco é o texto. A história, os personagens, a ação, o efeito que você quer causar. Se o texto se mostrar um conto, ou um mini conto, ou uma crônica, ou um romance, ou uma noveleta, ou uma poesia, ótimo. Escrever é dinamitar uma represa. Por mais que tente controlar o fluxo, chega hora que o fluxo domina você. Não acredito em gêneros ou em formatos. Acredito numa boa história com uma linguagem marcante e de impacto e, acima de tudo, em bons personagens. Literatura é voz. A voz do narrador e a voz dos personagens.

  • Não dá para querer ser escritor sem se testar, sem dar a cara a tapa – essa é uma frase sua. Antes de você enviar o original para o Prêmio SESC alguém fez alguma leitura crítica dele? Você costuma dar seus escritos para outras pessoas lerem, acha que isso ajuda a ter uma ideia melhor das reais possibilidades do texto?

Assis Brasil, o grande papa das oficinas literárias do Brasil, conta uma lenda sobre Virgílio. Quando Virgílio nasceu, sua mãe o levou a um oráculo, que lhe disse: essa criança será um grande escritor, por isso, quando estiver na idade, leve-a a Roma para que aprenda. Escrever é treino, escrever é reescrever muito, escrever tem muitos macetes e muitos atalhos, e muitas armadilhas. E não existe melhor forma de aprender e desenvolver seu texto e sua voz do que sentar com amigos e ler seu texto, e ouvir o que têm a dizer, e conhecer o texto de amigos e também aprender com eles. O universo dos escritores é um arquipélago muito remoto e muito rarefeito. A produção literária é algo muito introspectivo e silencioso. Fazer esta leitura com pessoas que você confia é o melhor caminho para se desenvolver. Só o fato de você ver que não está sozinho ajuda infinitamente. Eu fiz a oficina do Marcelino Freire e este sim foi o grande divisor de águas. Mas não por causa dele, ou do orientador que for, mas sim por causa dos colegas. Aprendi muito com eles, com sua visão e suas opiniões. Noveleletas não nasceu de chocaderia. Nenhum bom texto nasce sozinho.

  • Há casos de vencedores de concursos literários que seguem uma carreira duradoura na literatura, outros não. O que você acha que traz um prêmio literário? Abre portas junto ao mercado editorial ou pode ser apenas uma premiação isolada?

    Com o Prêmio SESC, sinto como se tivesse ganho um concurso de estágio numa grande empresa. Ganhei uma cadeira e ganhei um lugarzinho. Agora é começar a trabalhar para valer, porque todo mundo na empresa vai estar me avaliando e vendo se realmente mereço o lugar ali. O empurrão já foi dado – e bota empurrão nisso. Agora é comigo. E o que tenho feito desde que soube que ganhei é escrever. Isso deu mais confiança, mais conhecimento. Estufou meu peito para mergulhos mais profundos. Porque acredito que isso que vai determinar o legado do prêmio: o próximo texto. E, depois dele, o próximo.

  • Se você tivesse que dar uma única dica para quem quer submeter um original a um concurso literário, o que diria?

Finja que você é um grande escritor. Acredite na mentira. Finja que não é você. Depois que tiver escrito, trate o texto como se não fosse seu. Tire o ego da jogada. Com muito ego, você vai se achar pronto e seu texto certamente vai ter uma série de excessos e vaidades. Com nada de ego, você se anula tanto que não consegue imprimir sua voz ou até mesmo terminar. E procure encontrar sua voz. Todo mundo tem a sua. Não é fácil, é cansativo, frustrante, doloroso até. Mas nunca, NUNCA, seja um escritor ‘cover’ – aquele que procura escrever coisas só porque o mercado pede. Como toda arte, literatura também é sobre ser verdadeiro. Não existe nada mais verdadeiro do que você fingir que é um grande escritor e ir ganhando leitores nessa mentira. Mas não um escritor que já existe.

 João Vereza escreve para o portal Jornalirismo.

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Ronize Aline

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

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