Sherlock Holmes, romance policial
Criação Literária

20 regras para escrever um romance policial

20 regras para escrever um romance policial.

Histórias de detetive costumam atrair leitores de várias idades com sua narrativa permeada por recursos como medo, mistério, investigação, curiosidade, assombro e inquietação. Um crime e um personagem disposto a desvendá-lo: esses são os elementos fundamentais de uma narrativa do gênero, como pode-se verificar no romance precursor desse tipo de obra, Os crimes da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe. No livro, o personagem Auguste Dupin, após chegar ao local onde duas mulheres foram assassinadas com requintes de brutalidade, consegue descobrir quem era o assassino por meio de raciocínio lógico. Mas será que existem regras que ajudam a escrever um romance policial? Nesse artigo vamos mostrar as 20 regras para histórias de detetive escritas por S.S Van Dine, quem sabe elas não te ajudam a escrever o próximo romance?

As 20 regras para escrever histórias de detetive

S. S. Van Dine era o pseudônimo de Williard Huntington Wright, criador de Philo Vince, detetive muito famoso na literatura nos anos 1920 e 1930. Nos doze livros nos quais o personagem aparece a história é narrada por um amigo, justamente Van Dine, que assina os romances. As 20 regras a seguir foram publicadas originalmente na American Magazine, em setembro de 1928, e podem ser encontradas no livro O mundo emocionante do romance policial, de Paulo de Medeiros de Albuquerque. Van Dine começa dizendo que histórias de detetive são espécies de jogos intelectuais e que as regras foram extraídas da prática de grandes autores do gênero. Vamos a elas:

romance policial de Van Dine
Cartaz do filme de 1934 baseado no romance policial de Van Dine

1. O leitor deve ter oportunidade igual à do detetive de solucionar o mistério. Todas as pistas devem ser claramente enunciadas.

2. Nenhum truque ou tapeação proposital deve ser utilizado pelo autor, senão os que tenham sido legitimamente empregados pelo criminoso contra o próprio detetive.

3. Não deve haver interesse amoroso no entrecho. A questão a ser deslindada é a de levar o criminoso ao tribunal e não a de levar um casal ao altar.

4. Jamais o detetive ou algum investigador deve ser o culpado. Isso seria tapeação: naturalmente porque o raciocínio do leitor está voltado para o rol de suspeitos.

5. O culpado deve ser identificado mediante deduções lógicas e não por acidente, coincidência ou confissão forçada. O contrário disso seria mostrar ao leitor que todo o seu trabalho de dedução foi inútil pois o tempo todo o autor tinha o nome do criminoso.

6. A novela de detetive tem de ter um detetive. Alguém que “detecte”. Que analise as pistas e junte-as a fim de identificar o autor da sujeira relatada no primeiro capítulo.

7. É necessário que haja um cadáver. Quanto mais morto, melhor. Os crimes menores que homicídio são insuficientes. Só o assassinato desperta no leitor seu sentimento de vingança e horror.

8. O problema do crime deve ser solucionado por meios rigorosamente naturais. Métodos como leitura da mente, reuniões espíritas, bolas de cristal estão excluídos. O leitor deve ter oportunidade igual à do detetive para solucionar o mistério; se ele tiver que competir com espíritos, bolas de cristal, etc, fica em desvantagem.

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Sherlock Holmes, romance policial
Versão cinematográfica de Sherlock Holmes, criação de Arthur Conan Doyle

9. Cada história deve ter unicamente um detetive. Uma história com muitos detetives bagunça o raciocínio lógico da narrativa, além de deixar o leitor, que é único, em desvantagem. Na novela policial, o leitor se identifica com o detetive; havendo mais de um detetive, ele não sabe a quem dirigir sua atenção.

10. O culpado deve ser alguém que desempenhou papel mais ou menos destacado no entrecho. Alguém com quem o leitor se familiarizou. Se o autor apresenta um desconhecido como criminoso, estará admitindo sua derrota diante do leitor.

11. Criados – mordomos, valetes, guardas florestais, cozinheiros – não devem ser escolhidos pelo autor como culpados. Isso constitui uma solução fácil demais. O leitor ficará frustrado, achando que perdeu tempo tentando identificar um personagem tão desimportante. Se o crime foi obra de um trabalhador braçal, o autor não deveria ter escrito um livro a respeito.

12. Deve haver apenas um culpado, por maior que seja o número de homicídios cometidos. Esse culpado poderá ter um auxiliar, mas é nele que recairá a cólera do leitor.

13. As sociedades secretas, máfias, camorras, etc, não devem ter lugar em histórias de detetives. O assassinato verdadeiramente lindo e fascinante estaria comprometido por essa culpabilidade por atacado. Além disso, se o assassino pertence a um grupo criminoso, ele conta com uma rede de proteção, o que tira o fascínio do suspense.

14. O método utilizado para o assassinato e o meio de descobri-lo devem ser lógicos e científicos. Quer dizer que os meios pseudocientíficos e os dispositivos puramente imaginativos ou especulativos não serão tolerados no roman policier. O autor deve se limitar aos venenos e drogas conhecidos da população. Se inventar coisas mirabolantes sairá da área do romance policial e entrará no romance de aventura.

15. A verdade do problema deve estar bem à vista em todos os momentos da narrativa. O leitor tem que ser arguto para perceber. Quando o leitor chegando à última página recomeça a leitura deve pensar: Puxa, por que eu não percebi isso? O leitor tem que se convencer que não é tão arguto quanto o detetive. Uma novela de mistério nunca será de mistério para todos os leitores pois alguns deles descobrirão o assassino antes do detetive.

16. Uma novela de detetives não deve conter compridas passagens descritivas, nenhum rebuscamento literário em questões secundárias, nenhuma análise sutilmente elaborada dos personagens, nenhuma preocupação “atmosférica”. Tais procedimentos retardam a ação e carreiam para a história elementos que não têm nada a ver com ela. Leitores de novelas policiais não buscam enfeites literários, estilo, belas descrições, mas o estímulo mental e a atividade intelectual.

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Agatha Christie, conhecida como a Rainha do Crime

17. Jamais se deve atribuir a um criminoso profissional a culpabilidade do crime em uma história de detetives. Os crimes cometidos por arrombadores e bandidos estão na esfera da polícia – e não na esfera de autores e detetives amadores (leitores). O crime verdadeiramente fascinante é o cometido por uma coluna-mestra da igreja ou alguma solteirona conhecida por seus atos de caridade.

18. O crime na história policial jamais deve ocorrer por acidente ou suicídio. Encerrar a história com esse anticlímax corresponde a um truque contra o leitor.

19. O móvel do crime na novela policial deve ser de ordem pessoal. Ciúme, cobiça, amor, ódio, vingança, medo, tara, etc. Sair desses motivos equivaleria a retirar do leitor um elemento de dedução. Tramas internacionais pertencem a outro gênero – o gênero da espionagem. O crime deve refletir a vivência cotidiana do leitor, proporcionar-lhe certo escapamento para seus próprios desejos e emoções reprimidas.

20. Finalmente, e também para fazer uma conta redonda de parágrafos para este credo, queria enumerar abaixo alguns macetes aos quais não recorrerá nenhum autor que se respeite. São macetes que vimos muito frequentemente e que são, há muito, familiares a todos os verdadeiros amadores do crime na literatura. O autor que os utilizasse faria confissão de sua incapacidade e falta de originalidade.

a) A descoberta da identidade do culpado, comparando uma ponta de cigarro encontrada no local do crime í s que fuma um suspeito;

b) A sessão espí­rita trucada, no decorrer da qual o criminoso, tomado de terror, se denuncia;

c) As falsas impressões digitais;

d) O álibi constituí­do por meio de um manequim;

e) O cão que não late, revelando assim que o intruso é um familiar do local;

f) O culpado, irmão gêmeo do suspeito ou um parente que se parece com ele a ponto de levar a engano;

g) A seringa hipodérmica e o soro da verdade;

h) O assassinato cometido numa peça fechada, na presença dos representantes da polí­cia;

i) O emprego de associações de palavras para descobrir o culpado;

j) A decifração de um criptograma pelo detetive ou a descoberta de um código cifrado.

 Aqui você encontra a versão original em inglês das 20 regras.

Há os que alegam que grandes romances policiais quebraram várias das regras acima, e mesmo assim, se tornaram famosos. E você, concorda com Van Dine ou acha que essas regras são besteiras?

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

Ronize Aline

Escritora, crítica literária, jornalista e professora universitária. Trabalha com criação de textos e preparação de originais. Desenvolve cursos e palestras na área de Criação Literária e Escrita Criativa.

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20 Comments

  1. acho inteiramente verídica,as regras apresentadas a cima,estou escrevendo um romance policial,e desconhecia alguma dessas regras,relendo meu romance,percebi o quanto estava o deixando clichê sem seguir essas regras básicas,corremos o risco de sair do gênero policial. amei o site.

  2. Creuza Santos says:

    Ola, estou tentando escrever um romance policial desde 2005. adorei essas regras. estava completamente fora do assunto… (risos). muito útil. obrigada

    1. Olá, Creuza.
      Fico feliz que o blog esteja te ajudando.
      Seja sempre bem-vinda a participar.

      Abraços,
      Ronize Aline

  3. Stella says:

    É um texto sem dúvida interessante, mas acredito que grande parte dessas regras podem ser ignoradas sem problemas. Com criatividade e bom senso, não é preciso impor tantas limitações a uma obra.

  4. Felipe says:

    Ola! Estou começando a elaborar meu romance e este post veio de bom grado, obrigado.

    Mas, como minha ideia é totalmente original na literatura – já pesquisei – eu pensei em usar dois detetives: o detetive simples, que é usado em toda obra policial e um detetive que estaria entre os suspeitos, o que poderia aumentar as expectativas dele ser o culpado ou não pois, ele poderia estar tentando ajudar porque pessoas que tento lhe agradara estaria morrendo ou poderia tentar, por meio de pistas falsas ou outras ideias(tenho que pensar e repensar este ponto) criar um álibi.

    Sou iniciante e creio que tenho uma grande obra a idealizar e não sei se minhas ideias serão aceitas e compreendidas pelo publico, poderia me ajudar?

  5. Muito bacana!
    Seus posts são muito úteis para autores iniciantes e até mesmo os que já têm experiência em um gênero, mas possui algumas dúvidas em outros.

    Tenha uma ótima semana!
    Abraços

    1. Obrigada por mais uma visita, Ben.
      E continue participando aqui.
      Uma ótima semana para você também.
      Abraços,
      Ronize Aline

  6. gostei de algumas e discordei de outras.
    perdoe-me o spoiler (quem não quiser, por favor não leia) mas na peça the mousetrap da agatha christie – SPOILER ALERT –
    o culpado é o detetive e justamente isso torna a peça tão interessante.
    Logo, há sempre diálogo sobre as regras.

  7. VAGNER says:

    Parabéns pelo blog. Faz um ano que comecei a escrever, mas por enquanto escrevo crônicas e contos. Tenho muita vontade de escrever um livro de investigação policial, não sei quando irei começar, ainda estou estudando e melhorando a minha escrita. Vou visitar teu blog com mais frequência. Parabéns. Abraço

    1. Olá, Vagner.

      Que legal. Seja sempre bem-vindo.
      Abraços,
      Ronize Aline

  8. Mary says:

    Não faz o menor sentido.
    Agatha Christie quebrou quase todas essas regras e é a maior escritora policial de sempre.

    1. Olá, Mary.

      Esse é o barato das regras: cada escritor tem as suas. As apresentadas aqui são do escritor S.S. Van Dine, funcionaram para ele e podem ajudar outros. Há autores que criam suas próprias regras. E outros simplesmente quebram todas. O importante é saber o que funciona para cada um. Quanto mais a gente conhece, mais opções tem para escolher.

      Abraços,
      Ronize Aline

  9. Discordo de algumas, concordo com outras. Especialmente aquelas sobre não se utilizar métodos sobrenaturais ou mágicos para a descoberta do assassino, senão ficaria fácil demais. A menos que seu sistema de magia tivesse regras e limitações que tornassem tudo mais interessante, mas não mais fácil. Mas acho interessante adicionar um toque sobrenatural, especialmente se o personagem em questão for religioso ou supersticioso (afinal, as pessoas veem o que querem ver). Quanto aos personagens, adoro aquelas histórias em que, além de apresentarem uma trama instigante, também focam nos personagens, explorando suas personalidades. Afinal, histórias sobre crime abrem muito espaço para nos aprofundarmos nos detalhes mais sórdidos de cada personagem.

    Abraços.

  10. Annie says:

    Olá, eu e uma colega decidimos escrever não um livro, um pouco menos, uma fanfic (a princípio pensamos em fazer m categoria original, mas vimos que dá mais “audiência” na categoria de um anime que ambas conhecemos e adoramos) com gênero romance policial. Haverá uma única detetive, uma única assassina que mata por vingança, dois policiais e um delegado. Decidimos então, narrar em primeira pessoa ora o policial ora a detetive. A assassina irá virar amiga da detetive por interesse, mas ao longo da história ela perceberá que por mais que esteja em perigo a detetive virara sua amiga de verdade. Mas nós também decidimos que não mostraríamos aos leitores quem será o assassino, até porque, a fanfic será narrada pelos dois membros da polícia, e ambos não sabem.
    Gostaria de saber, o que você acha sobre cada capítulo narrado em primeira pessoa intercalando entre a detetive e um dos policiais, e sobre esconder quem é realmente o assassino?

  11. José Igor says:

    Adorei reler essas dicas, mas vamos lá!
    Soa até engraçadíssima essa lista… pode até ter funcionado nos anos 20. Mas hoje em dia isso tudo pode ser claramente rebatido e quebrado com maestria. Claro, acredito que esse texto tenha sido mostrado para nós, leitores e escritores, como forma de analisar de como no decorrer dos anos as “coisas” mudam… e viva isso! Porque essas regras já não dão mais para serem consideradas na contemporaneidade em que vivemos.
    Um belo texto para refletirmos e discutirmos!
    Amei o site! Parabéns!

    1. Kelly says:

      Estou a confundir ou realmente, voce esta por detras da historia “O cumplice e o Assassino”? se for, gostaria de lhe parabenizar.

      1. Olá, Kelly.

        Não, não estou 😉

        Abraços,
        Ronize Aline

      2. José Igor says:

        Kelly, prazer, sou eu o autor de “O Cúmplice e o Assassino”. Muito obrigado! =)

        Gostaria de saber por onde ficou sabendo do livro.

        Grato pela atenção! Um beijo! ^.^

  12. Kelly says:

    Puxa Vida! No momento estou escrevendo um romance policial. Varias coisas estavam fora de questao. As regras me foram demasiado uteis. Muito Obrigada mesmo.

    1. Que legal, Kelly!

      Fico feliz. Seja sempre bem-vinda!

      Abraços,
      Ronize Aline

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